quarta-feira, julho 26, 2006

Quando é que termina o sofrimento…?

Continuava nas lides domésticas. Mais de noventa anos e limpar, cozinhar, passar, lavar continuam a ser o dia a dia desta mulher numa casa com cinco pessoas (além dela). Foi no meio de uma dessas actividades corriqueiras que se aventurou a dizer, a medo, o que lhe ia na alma:
_ Ouvi dizer que a Cruz Vermelha aceita velhinhos de graça…
_ Quem é que lhe disse isso?
A reacção era da pessoa que devia protegê-la: a neta.
_ Você vem sempre cheia de macaquinhos quando vai lá para casa da tia!
Tinha ido, de facto, para casa de alguém. Mas apenas porque a família, com quem vive, foi de férias sem a levar. Nos primeiros dias, abusou da hospitalidade de uma vizinha. Quis pagar essa hospitalidade. A vizinha, obviamente, não aceitou. Sentindo-se uma imposição em casa alheia, arrumou a trouxe (literalmente: um saco de plástico com uma pijama e uma muda de roupa) e foi vista à espera de um autocarro ao cimo da rua, no fim de uma manhã quente demais para a sua idade. Inquirida sobre a viagem disse apenas:
_ Vou ver se me deixam ficar em casa do meu filho até amanhã ou depois…
E foi. Pelo visto, tinha vindo de lá “cheia de macaquinhos”… Queria sair daquela casa onde se sentia um incómodo. Na verdade, tinha medo daquelas pessoas que eram a sua família. Era claro que não era amor que lhe dedicavam… Então, porque a queriam lá?
Talvez tenha sido o tempo quente ou o esforço de ter tido coragem de dizer que havia no mundo quem a acolhesse “de graça” ou a rispidez da resposta da neta... Teve falta de ar… Começava a ser frequente… Estava a sentir-se mal.
_ Por favor, leva-me ao hospital… - Pediu a medo.
_ Agora não posso! Não me chateie.
_ Por favor… - Sentia-se derrotada. – Então, chama-me um táxi…
A resposta foi pronta novamente:
_ Deixe-se estar quieta! E aí de si que eu saiba que foi incomodar o senhorio para lhe chamar um táxi, ouviu?!
Era assim. E, se era assim, para que a queriam ali? Não podia ser pelo dinheiro miserável da reforma que tinha… Porquê, então? Porque lavava e limpava? Porque a mantinham cativa numa casa sem amor e cheia de palavras sempre duras? Para que tinha vivido mais de noventa anos? Quando é que termina o sofrimento…?

10 comentários:

El`Predador disse...

Tudo na vida transporta dois sentidos...
Não escolho caminhos... Apenas ando!
Tal como o sofrimento que ninguém chama, mas que todos sentem...

Felicidades para ti tb... Ah e boas férias, seja em Roma ou numa prais mais próxima:))))

PCF disse...

:)

Gonzo disse...

Nunca nos podemos esquecer que a vida é feita de mimentos unicos e irrepetiveis...por isso temos que simplesmente procurar VIVER!!!

Parabéns pelo texto

Besitos

Pierrot disse...

Escreves muitissimo bem sabias!?
Tens um discurso perfeito.
E o texto é giro.
Parabéns
Bjs
Eugénio Rodrigues

Eli disse...

:S

pois...

:S

GK disse...

... Infelizmente, o texto é verídico...

:(

≈♥ Nadir ♥≈ disse...

:(
Tão triste...
Beijos

mixtu disse...

um retrato do que acontece actualmente... muitas vezes... falata ed carinho, respostas e conversas duras...
para quê... limpar, cozinhar...
Sofrimento...

besitos

Louco de Lisboa disse...

Os nossos velhos (termo carinhoso), já não são vistos como pessoas... pena :(
Estamos a entrar numa altura em que muitos são deixados nos hospitais, deveriamos (incluo-me) ser mais atentos, mais carinhosos, mais presentes, mais ouvintes, mais educandos, mais... mais... mais...

Kiss pour toi, até outro instante!

SoNosCredita disse...

bem, já falámos sobre isto:

é triste, desumano, insensível...
nem consigo encontrar a palavra que melhor defina esse tipo de comportamento.

mas talvez seja porque a senhora arruma e limpa... ñ estou a ver mais nenhuma razão.
acho que, noutra situação, já a teriam posto dali para fora!