Segunda-feira, Dezembro 26, 2011

Foda-se - por Millôr Fernandes

Foda-se - por Millôr Fernandes
(adaptado)

O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela diz.
Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"?
O "foda-se!" aumenta a minha auto-estima, torna-me uma pessoa melhor.
Reorganiza as coisas. Liberta-me.

"Não quer sair comigo?! - então, foda-se!"
"Vai querer mesmo decidir essa merda sozinho(a)?! - então, foda-se!"

O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição.

Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para dotar o nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade os nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo a fazer a sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia.

"Comó caralho", por exemplo. Que expressão traduz melhor a ideia de muita quantidade que "comó caralho"?

"Comó caralho" tende para o infinito, é quase uma expressão matemática.

A Via Láctea tem estrelas comó caralho!
O Sol está quente comó caralho!
O universo é antigo comó caralho!
Eu gosto do meu clube comó caralho!
O gajo é parvo comó caralho!

Entendes?
No género do "comó caralho", mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso "nem que te fodas!".
Nem o "Não, não e não!" e tão pouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade "Não, nem pensar!" o substituem.
O "nem que te fodas!" é irretorquível e liquida o assunto.
Liberta-te, com a consciência tranquila, para outras actividades de maior interesse na tua vida.
Aquele filho pintelho de 17 anos atormenta-te pedindo o carro para ir surfar na praia? Não percas tempo nem paciência.
Solta logo um definitivo:
"Huguinho, presta atenção, filho querido, nem que te fodas!".
O impertinente aprende logo a lição e vai para o Centro Comercial encontrar-se com os amigos, sem qualquer problema, e tu fechas os olhos e voltas a curtir o CD (...)

Há outros palavrões igualmente clássicos.
Pense na sonoridade de um "Puta que pariu!", ou o seu correlativo "Pu-ta-que-o-pa-riu!", falado assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba.
Diante de uma notícia irritante, qualquer "puta-que-o-pariu!", dito assim, põe-te outra vez nos eixos.
Os teus neurónios têm o devido tempo e clima para se reorganizarem e encontrarem a atitude que te permitirá dar um merecido troco ou livrares-te de maiores dores de cabeça.

E o que dizer do nosso famoso "vai levar no cu!"? E a sua maravilhosa e reforçadora derivação "vai levar no olho do cu!"?
Já imaginaste o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta:
"Chega! Vai levar no olho do cu!"?
Pronto, tu retomaste as rédeas da tua vida, a tua auto-estima.
Desabotoas a camisa e sais à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.

E seria tremendamente injusto não registar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: "Fodeu-se!". E a sua derivação, mais avassaladora ainda: "Já se fodeu!".
Conheces definição mais exacta, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação?
Expressão, inclusivé, que uma vez proferida insere o seu autor num providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando estás a sem documentos do carro, sem carta de condução e ouves uma sirene de polícia atrás de ti a mandar-te parar. O que dizes? "Já me fodi!"
Ou quando te apercebes que és de um país em que quase nada funciona, o desemprego não baixa, os impostos são altos, a saúde, a educação e … a justiça são de baixa qualidade, os empresários são de pouca qualidade e procuram o lucro fácil e em pouco tempo, as reformas têm que baixar, o tempo para a desejada reforma tem que aumentar … tu pensas “Já me fodi!”

Então:

Liberdade,
Igualdade,
Fraternidade
e
foda-se!!!

Mas não desespere:

Este país … ainda vai ser “um país do caralho!”

Atente no que lhe digo!

Segunda-feira, Junho 06, 2011

Mars


In a time, in a place
Where I couldn’t see its face
A sorrow started growing.
Hidden, estranged
I went through life, engaged,
Forgotten, without showing.

Often I wondered, in regret,
How could I have come to forget
The girl waving in the mirror?
I searched, I sought, I prayed,
I lost the battle and stayed
Until skies became clearer.

A voice, a note, a feeling,
A rawness, a life, a meaning,
A path of emotions awaken…
I opened my eyes to see
For the first time, to me,
A new song. Unmistaken.

A promise, a cult, a greatness,
A way out of the darkness,
A shot straight through the heart;
A brotherhood of light,
Courage for the fight,
A fraternity made of art.

I left behind the scars,
I’m reaching for the stars,
I’m currently living in Mars.


@GKPortugal
(Image: Deborah Jones Silver Jewllery)

Quarta-feira, Fevereiro 16, 2011

Thirty Seconds To Mars - Hurricane (Censored Version)



This video is about freedom. And the general fear of it.
All the sexual perverts – as society sees them -, all their struggles, get mixed up with their guilt, their pleasure, their fights, the trouble going on with society outside their cocoon, other peoples’ expectations – here filmed in the eyes of young children -, other peoples’ fears and judgments, the repression of religion (it is a powerful thing watching holly books being thrown into the fire!)… And they (we) all have a key to freedom, if they (we) chose to use it...
I see a lot in this movie. Maybe too much. I regret that people see only sex in it. But maybe that’s the way to get to them, to shake them. Maybe, even, it’s not meant to be analyzed, but FELT. As it is ART. And maybe I feel too much…

Quarta-feira, Janeiro 19, 2011

Quarta-feira, Dezembro 08, 2010

30 Seconds To Mars - Closer To The Edge



I don't remember one moment I tried to forget,
I lost myself, is it better not said now
I'm closer to the edge

It was a thousand to one and a million to two,
Time to go down in flames and I'm taking you
Closer to the edge

No, I'm not saying I'm sorry,
One day maybe we'll meet again
No, I'm not saying I'm sorry,
One day maybe we'll meet again
NO NO NO!

(Can you, can you, can you)
Can you imagine the time when the truth ran free
The birth of a son and the death of a dream
Closer to the edge

This never ending story, paid for with pride and faith
We all fall short of glory, lost in ourselves

No, I'm not saying I'm sorry,
One day maybe we'll meet again
No, I'm not saying I'm sorry,
One day maybe we'll meet again
NO NO NO NO!
(NO NO NO NO!)

I will never forget
(NO NO!)
I will never regret
(NO NO!)
I will live my life
(NO NO NO NO!)
I will never forget
(NO NO!)
I will never regret
(NO NO!)
I will live my life

No, I'm not saying I'm sorry,
One day maybe we'll meet again
(NO NO!)
No, I'm not saying I'm sorry,
One day maybe we'll meet again
(NO NO NO NO!)

Closer to the egde,
Closer to the edge
NO NO NO NO!
Closer to the egde,
Closer to the edge
NO NO NO NO!
Closer to the edge

Quarta-feira, Setembro 29, 2010

“Sheila”, “Maria”, “Rosa” e eu

_ Há muita mulhé bunita em Portugau, filho. Aposto qui você vai encontrá a minina certa aqui.
A conversa decorria no maior Centro de Saúde da cidade, à porta da especialidade de Oftalmologia. Bruno tem 6 anos e começou a frequentar a escola em Portugal há 15 dias. Vê como uma águia, mas precisa de corrigir a vista. A mãe, brasileira, mineira, mestiça, gasta pelos anos e por uma trombose numa idade jovem, aturava com paciência as perguntas inesgotáveis do menino.
_ Ele deixou uma lista enorrme di mininas no Brasil. Prometeu pra todais que ais trazia prá Pórrtugau.
_ Só prometi prá uma, viu! – Ralhou, genuinamente zangado, o menino. A mãe insistiu. Havia muitas mulheres bonitas em Portugal…
_ Ou então, você vai buscá sua mulher nu Brasiu, iguau à seu pai.
“Sheila” (ou “Gislene” ou “Cassandra” ou o que for) casou com um português que a foi “buscar ao Brasil”. Desse amor nasceram três filhos. O mais velho já andava na Universidade quando ela teve a trombose que a debilitou irremediavelmente. Com corpo e mente ainda em forma, “Sheila” ficou com o lado esquerdo totalmente afectado. Agora coxeia e tem uma mão defeituosa.
_ Ele acabou não si interessando mais porr mim. – Revelou mais à frente na conversa, em tom neutro e adulto, quando explicava a razão da sua “deficiência”, como lhe chama, e como voltou para o Brasil com um menino de um ano e meio para começar a vida novamente sozinha, deixando dois filhos mais crescidos com os avós paternos, por quererem continuar a estudar em Portugal. – Homem é mesmo assim, num é? Gosta de você quando você é jovem e bonita. Doença não entra na equação.
“Maria” (ou “Gertrudes” ou “Conceição”), 73 anos, portuguesa, tesa, católica, mulher do campo, que trouxe o marido à consulta porque “ele nem queixar-se sabe, tenho de ser eu a fazer tudo por ele… mas é a mim que ele me chama analfabeta… é que eu não sei ler, sabe?” – tinha-me confessado meia hora antes, na fila do atendimento – aproveita para suspirar. Sentada directamente à frente de “Sheila”, chega-se à frente na cadeira e sussurra como se o marido não a pudesse ouvir:
_ É verdade, é. Uma vez senti-me mal durante a noite. Ele acordou, percebeu, mas nem se levantou da cama. – O marido, se ouviu, não o demonstrou.
Bruno continuou a fazer tropelias. Sempre correcto e educado, demonstrava uma força de carácter e uma inteligência invulgares para na idade. Mostrou-se chocado quando a mãe lhe revelou que era tripeiro (“Você e seu irrmão Filipe nasceram no Porrto, sim. Nasceu no Porrto, é tripêro!”). O menino não gostou do termo.
_ Eu sou porrtuguês, mais num sou tripêro, não!
Mas gosta dos Dragões e do hino português, que cantava todos os dias na escola, no Brasil, e que passavam propositadamente por ele “ser estrangeiro” logo a seguir ao hino brasileiro, que também sabe de cor. Cantou, com esmero, "A Portuguesa" para todos os presentes ouvirem.
“Rosa” (ou “Júlia” ou “Filomena”), na casa dos 50, ainda bonita, sóbria, calada, sentou-se já a meio da complicada história de vida da brasileira. Emocionou-se a ver o menino cantar o hino e continuou a olhá-lo com carinho, embora pouco tenha participado na conversa.
“Sheila” contou como foi difícil descobrir que estava grávida poucos meses depois da sua trombose. Como chorou com o veredicto de que o menino poderia nascer “com problemas”. Como, com o fim do casamento, foi para o Brasil com um filho de ano e meio nos braços e, “mesmo doentchi, consigui providenciá para eles”. “Rosa” quis saber “porque voltou”.
_ Meus sogros. Eles me trouxeram dgi volta. Nunca se conformaram que eu tivesse ido.
_ Bons sogros. Tem uns bons sogros – Disse “Rosa” num tom sincero e triste.
_ Eles sabem que o filho num mi merece. Eu e o pai deles vivemos na mesma casa, mas em andares dgiferentes. Eu num com meu filhos e ele noutro com os pais dele. Falamos, para o bem dos meninos, mas nada mais. Mas os avós… Meus filhos são loucos pelos avós!
Como num filme, em que o actor principal dá a deixa certa, um homem encorpado, de cabelo branco, distinto, chegou à pequena sala de espera. Bruno saltou-lhe para o pescoço com um grito e “Sheila” apresentou-o com familiaridade e um sorriso:
- Aí está, o avô. Meu sogro.
O tratamento entre os três era respeitoso e carinhoso. O menino “atacou”o avô com brincadeiras atrevidas e o velhote respondeu com uma paciência infinita. “Sheila” brincou, dizendo que agora que o sogro tinha chegado podia descansar das perguntas constantes do filho. “Maria” deliciava-se com a paciência e o carinho do ancião, perante a passividade do marido. E “Rosa” - vi eu - olhava a cena discretamente, mas com os olhos húmidos de lágrimas...
E eu, sentada, à espera da consulta de Oftalmologia no maior Centro de Saúde da cidade, cansada de uma noite mal dormida e dormente pela luz jovem do sol que espreitava pela janela e pela voz constante do doce Bruno, que penteava agora o avô com um carrinho de brincar, pensei de forma fugidia... que outras mágoas esconderiam aquelas mulheres…?

Sexta-feira, Setembro 24, 2010

Desaparecida

Andei desaparecida. Cansei-me de me expor. Cansei-me de procurar aprovação. Cansei-me de pedir solidariedade. Cansei-me de analisar, de dar opiniões, de procurar consensos. Desapareci.
Depois de um período de reclusão, acho que me encontrei.
Não sinto falta de me expor, mas sinto falta de escrever. Sinto que já não o sei fazer como antes… Mas, se voltar aqui, este blog volta a tornar-se uma obrigação e não um refúgio.
Não sei o que vou escolher…