terça-feira, março 06, 2007

Num Domingo de Espírito Santo

Julita era uma jovem bem comportada quando, num Domingo de Espírito Santo, foi com uma tia enfeitar a sepultura de um familiar.
No largo em frente à Igreja, a festa do Espírito Santo decorria com enorme alarido. Dos vendedores ambulantes, aos carrosséis, das barraquinhas de farturas às brincadeiras dos miúdos, tudo produzia alarido e boa disposição.
No cemitério, mesmo ao lado da Igreja e cuja entrada se situava num canto já longe do largo, o coveiro decidiu abandonar o seu posto mais cedo, seguramente para se juntar à festa. Saiu, fechou o portão e levou a chave com ele…
Julita e a tia, embelezada a sepultura, dirigiram-se confiantes para a saída… Mas o portão estava fechado, trancado, esquecido naquela tarde de festa…
Ao pânico da tia, juntou-se a histeria de outra pobre senhora que tinha sido também apanhada de surpresa pela “balda” do coveiro… As duas gritavam agarradas ao portão, na esperança de que os convivas do Espírito Santo ou os vizinhos da Igreja as ouvissem. Julita ria. Julita não conseguia parar de rir!
Porquê?
Porque cada vez que alguém se aproximava e via três mulheres a gritar agarradas ao portão de um cemitério abandonado… gritavam também! E fugiam assustados com aquilo que julgavam ser almas penadas!
Julita riu e assustou transeuntes com vontade até o padre ouvir os gritos cada mais desesperados das duas mulheres. Era noite escura quando foram libertadas.
O coveiro foi admoestado. A tia deixou de conseguir entrar em cemitérios a horas tardias. E Julita ficou com uma história para contar.
_Anda cá que te apanho! – Gostaria de ter dito aos transeuntes. – E se não me ajudas, esta noite vou-te puxar um pé! – Diz agora entre gargalhadas.

12 comentários:

voyeur de blogs disse...

O que dizer?
Gostei muito e calo-me.
Porque gosto de ler...E adorava saber escrever.

Bellatrix disse...

a minha mãe bem diz.. no cemitério só tem medo dos vivos.... e pelos vistos, são os vivos quem mais assuta... gostei do texto.
* Bellatrix *

Mina disse...

Bem, ao menos numa situação mais desagradável, houve quem soubesse manter a compostura... ou não! :D
Bjs!

Miss Alcor disse...

Brilhante!

Há histórias do arco da velha!

Gostava de conseguir manter assim o sangue frio em todas as situações em que me vejo envolvida, para assim tirar o melhor partido das coisas, como fez a Julita!

Grande Julita!

Jotabê disse...

Engraçado esse pavor das pessoas pelo cemitério, triplicado pela fatalidade de lá ficarem trancados.
Recordo-me ali por alturas da minha pré-adolescência em Vila Real de Santo António, onde impreterivelmente passava as minhas férias grandes, em casa de uma tia.
Haviam dois locais de eleição, que eu e o meu primo escolhíamos, para suportar o calor dos inícios das tardes, quando as ruas da vila se encontravam desertas, e nós uns ‘galdeiraços’, insistíamos em permanecer na rua; eram locais frescos, calmos que se prestavam às nossas brincadeiras de cariz mais sereno, eram precisamente o cemitério e a igreja.
No cemitério, deambulávamos pelas campas, a morte era muiita das vezes o tema principal das conversas, especular sobre a razão da morte das pessoas pelas fotos que tinham nas suas campas, era outro ‘passatempo’, foi talvez a minha memória mais remota de lidar com a melancolia, melancolia que se viria a instalar pouco tempo mais tarde, mas por outros motivos.
Muita gente achava este nosso procedimento um tanto ou quanto desajustado, eu tive imenso prazer de, em determinados momentos como protagonista num determinado grupo de amigos, referir que aquela estratégia ali apresentada, teria sido planeada na calma do cemitério de VRSA.
Era sem dúvida o momento alto, acompanhado com aquele arregalar de olhos estranho que fazia para acompanhar a palavra cemitério.

8|

:)

beijoca

João Cordeiro disse...

Fantástico!
Que posso eu dizer se os meus olhos não falam!
Transmitem emoções, a essa beleza inconfundível
que as palavras me transmitem
Aqui estou eu para te dar o meu apoio e solidariedade
Soberbo... continua…
Meu blog:
http://www.sonhadoremfulltime.blogspot.com/

Rafeiro Perfumado disse...

Essa Julita é uma sádica! Gosto da jove... ;)

Pepe Luigi disse...

Adorei de verdade esta história hilariante, possivelmente como só tu saberás contar.

Postei um comentário no tema Excessos. Para mim foram memórias revitalizantes.
Obrigado.

Um beijinho
do Pepe.

nuno disse...

queres ver que ainda lá está presa a rapariga...

Pepe Luigi disse...

Possivelmente já atrazado, mas não quero deixar de te dar um grande beijinho de parabéns pelo Dia Mundial da Mulher!

Pepe.

GK disse...

Pepe Luigi:
Obrigada! :)

Já agora... A Julita é a minha mamã... LOL

SoNosCredita disse...

:)
uma vanguardista, a Julita!