
Não encaixo. Não vale a pena procurar o lado zen da vida. Ele, para mim, não existe.
Eu bem tento olhar para tudo com distanciamento, já “dando o desconto”, mas a verdade é que não tenho hipóteses nenhumas!
Não encaixo.
Ora é porque não suporto as “diferenças” entra quem chega a chefe e quem não está talhado para isso (que é o meu caso, claríssimamente!), ora é porque não suporto as superficialidades do mundo que me rodeia, ora é porque estou farta de me sentir desvalorizada, até quando tenho a certeza do que estou a fazer.
Três episódios simples…
Chove a potes. Dois guarda-chuvas descansam junto à porta de entrada da empresa. Termina uma reunião com o Presidente do Conselho de Administração. Ele chega à porta, pega indiscriminadamente num dos guarda-chuvas e pergunta:
_De quem é isto?
Uma das colaboradoras acusou-se...
Resposta do chefe:
_Bom, agora é meu. Quer dizer… Eu depois devolvo-lho… Ou antes… Na verdade, as probabilidades de lho devolver são muito escassas. …Bom, vou levá-lo.
E foi-se.
Isto é para rir? Ou para chorar?
Numa visita a uma amiga que fez uma redução de estômago, uma outra amiga esteve, como sempre, a dar-lhe dicas de dieta. É habitual. Quando alguém fica privado de comer, fala-se em comida; quando alguém fica privado de tomar banho, fala-se de higiene, etc. Mas durante toda aquela visita se falou de dicas de emagrecimento. Deram-se lições…
À noite, num jantar colectivo de gajas, a perita em dietas encheu o prato de sobremesas que eram em buffet…
Isto é para rir? Ou para chorar?
Ou devo catalogar aquilo no file “futilidades”?! …Como aquelas em que se comenta a gordura da Jennifer Lopez que está ÓPTIMA apesar de APENAS há oito meses ter tido DOIS filhos GÉMEOS! Ou como as alusões às rugas do Pierce Brosnan que eu nunca cheguei a ver, apesar de ter tido o privilégio de “conhecer” o senhor…
Talvez eu seja cega…
Eu prefiro acreditar que, em vez de ser cega, a dose normal de futilidade presente no ser humano não me foi distribuída por altura da criação!...
Mas mesmo sem a dose “regular”, queixo-me do meu rabo e dos meus dentes e recebo aplausos quando digo que quero mudar algo em mim…
Isto é para rir? Ou para chorar?
Sou RP. É o meu trabalho. E ex-jornalista. Embora por vezes duvide das minhas capacidades, sei EXACTAMENTE como funciona isto dos media e o que “vende” na Comunicação Social. Sei qual deve ser o comportamento perante quase todas as situações em que seja necessário um contacto directo com a imprensa. Em suma: é o meu trabalho. E eu SOU competente (FODA-SE!!! EU SOU competente!).
Mas o meu chefe não percebe que quando eu lhe dou um conselho que ele não segue, está a “habilitar-se”… Não percebe que, quando eu lhe digo “É assim!”, não lhe estou a dar uma opinião oca, estou a dar-lhe um conselho ESTRATÉGICO pelo o qual supostamente ele me paga um salário!
…Depois os media publicam merdas onde criticam o MEU trabalho!
Mas isso não incomoda o meu chefe, que não percebe que não é só o nome dele que está em jogo. Não percebe que o MEU nome, por pequeno que seja, também está em jogo nesta cidade que é, na verdade, uma aldeia onde ninguém se esquece dos erros dos outros.
Para o meu chefe, as críticas ao meu trabalho são fait divers. Ao passo que, quando está ele na boca do lobo, fala em processos judiciais.
Mas como todos os miseráveis deste país… Eu PRECISO do salário…
Isto é para rir? Ou para chorar?
Estou cansada.
O zen parece-me cada vez mais inalcançável.
E, batam-me, porque estou a “ser gaja” demais!
O que vale é que a maturidade nos dá para encolher os ombros em vez de chorar…
Mesmo assim… vai ser um loooooooongo Inverno….