quinta-feira, novembro 06, 2008

Remains

Apesar de querer fechar este “capítulo” da minha dolorosa história com o meu pai, pelo menos no blog, sinto que tenho de fazer uma última referência ao assunto, porque acho que o devo, pelo menos a quem teve uma experiência semelhante…
A minha história está discutida, analisada, assumida. Não há muito mais a fazer a não ser enfrentá-la e esperar que algo mude, uma vez que eu já mudei. O meu pai já não me intimida, já não me assusta, já não me consegue humilhar… Mas consegue ainda magoar. E muito.
Mesmo com as coisas “resolvidas” dentro de mim (ou talvez exactamente por isso!), há uma verdade à qual eu não posso fugir: TUDO o que eu sou vem dali. TUDO.
Eu sou agressiva quando estou a defender as minhas ideias, porque só na base do conflito é que eu conseguia levar a melhor. (“A melhor” sendo fazer o que me apetece. Mas sem apoio de ninguém…)
Eu não acredito no casamento, porque nunca o vi funcionar.
Eu não quero ter filhos porque não quero dar cabo da vida de ninguém, como deram cabo da minha. E porque há sempre algo que os filhos não perdoam aos pais. E eu não conseguiria viver com isso. Muito menos com o facto de um dia de mais stress, inevitavelmente, tratar o meu puto como o meu pai me tratou a mim.
Eu sou independente, porque nunca contei com a verdadeira ajuda dos meus pais para nada.
Eu sou solitária e tenho dificuldade em pedir ajuda pelo mesmo motivo.
Eu sou desconfiada, descrente e cínica perante as coisas boas da vida, porque o meu pai me ensinou que este mundo existe para te lixar e provou-o.
Eu oscilo entre a humildade excessiva e o orgulho e a auto-confiança, porque vivi sempre com medo e, por fim, tive de aprender a reagir sozinha e conseguir coisas sozinha a acreditar que “sim, é possível” sozinha… E a ter vitórias sozinha. Isso torna-nos estupidamente orgulhosos, porque nos tornamos sólidos. Mas acabamos por não aprender a partilhar tristezas ou vitórias. E não há forma maior de solidão nem maior castigo do que não saber partilhar vitórias.
Eu, bem no fundo, acho que nunca vou ser mais do que uma miserável que nunca vai conseguir nada de bom na vida, porque o meu pai me ensinou a olhar para mim assim e acredita que quando olhamos para nós próprios e achamos que merecemos mais do que o que temos é soberba.
Quando tudo está mal, eu não penso em matar-me. Penso em fazer a mala e partir. Porque sempre sonhei desaparecer da vista do meu pai para sempre, não castigar-me sem retorno.
Claro que ele também me conseguiu transmitir bons valores.
Eu já referi que o meu pai é um bom homem. Humilde, trabalhador, moral. Sou tudo isto. E mais.
Mas ninguém me tira da cabeça que foi ter este pai que determinou QUEM eu sou. E isso não lhe perdoo. Não lhe perdoo porque não o posso esquecer.

10 comentários:

Pedro Barata disse...

E deves gostar de quem és. Ter orgulho no que tens de bom e melhorar o que tens de mau, mas sempre gostando de ti e procurando ser melhor!

Fica com um beijinho meu!

Gi disse...

O teu pai aceita-se como é?
Tu, pelo menos, não aceitas ser parecida com o teu pai; tenta mudar e não ser como ele;
Pensa em coisas boas: eu sou casada há 20, namoro com o meu marido há 25 (namoro mesmo, mais agora, que as crianças já cresceram); conhecemo-nos há 28.
Os meus filhos são felizes; há diálogo cá em casa e companheirismo;
Há muitas famílias assim e tu podes ter uma; empenha-te em traçar um rumo diferente do do teu pai.
Não leves a mala eu estar a dizer isto, mas foi o que senti ao ler este post.

edelweiss disse...

tenho acompanhado o teu blog e agora não resisti a comentar.. sorry.. aceito a tua raiva... é tua. e só nós podemos viver com o que é nosso.

mas há duas coisas que não concordo: "Penso em fazer a mala e partir". isso nao resolve nada. acredita. Falo por experiencia propria. os problemas da nossa vida acompanham-nos para onde quer que a gente vá. seja o outro lado do mundo ou a lua. Talvez o facto de viver À distancia nos leve a repensar a nossa vida, a ter experiencias novas, a mudar a nossa forma de ver o mundo mas jamais resolve problemas pendentes. Isso é, na minha singela opinião, fugir de um problema quando nos sentimos incapazes de os resolver.

"Mas ninguém me tira da cabeça que foi ter este pai que determinou QUEM eu sou". acredito que somos fruto do ambiente em que vivemos. Mas uma unica pessoa jamais nos vai influenciar em tudo o que somos.

Tenho uma familia "normal" ( se é que isso existe). quando vivia em portugal passava a vida a discutir com o meu pai: somos iguais. O mesmo feitio. Os mesmos defeitos. O mesmo orgulho e a mesma determinação. As vezes talvez fosse um bocadinho rude comigo..e lá ia a mae por agua na fervura. mas nos ultimos 3 anos, desde que sai dai, descobri que tenho um pai coraçao mole. e que a distancia só comprovou que, de facto, somos iguaizinhos!Em tudo!

Dar conselhos? nao tos vos dar... talvez so tu e os teus amigos, que vivem o dia a dia ctg, te possam ajudar. sabem e vem o que se passa.

Mas deixo te uma sugestão. Abre o coração... e tira essa raiva dai de dentro. a Vida é demasiado curta. E há sempre alguem que nos quer bem, há sempre alguem que merece que a gente abra o nosso coração... Há sempre uma razao de viver por mais dificil que seja viver. E digo-te, mais uma vez, falo por experiencia propria.. deixei a minha terra. os meus amigos. a minha familia e ha 3 anos cheguei a um mundo desconhecido e completamente diferente. desdes os habitos À lingua. O modo de vida e o modo de ser. o oposto daquilo que nos, portugueses/ europeus somos.Completamente. 3 anos depois descobri aqui a "minha nova familia", os meus amigos, o meu mundo. Vi gente a viver na miseria e a ser feliz. Vi gente feliz so por um minuto de atenção. descobri que somos demasiados materialistas e egoistas. Descobri que é bom viver. Mas de facto viver longe de casa cansa.

Beijos e força!

SoNosCredita disse...

cm te compreendo :/

Carracinha Linda! disse...

Olá GK...

Regressei e só agora pude vir aqui. E deparo-me com estes posts que não deixam ninguém indiferente.

Não te venho dar lições de moral, nem dizer que te percebo porque, apesar de algumas discussões com os meus pais, as coisas nunca chegaram ao ponto da tua relação com o teu pai.

Escreves que o teu pai te fez ser a pessoa que és. Mas tu és uma boa pessoa, sabes distinguir o certo do errado, sabes ver injustiças, sabes o que queres e o que não queres. Li isto e fiquei com a ideia que deves ser uma pessoa com muita força. Sim, só uma pessoa assim consegue aguentar uma situação destas. Outra pessoa muito provavelmente já tinha deixado esse cenário para trás.

Por isso não aches que vais ser uma pessoa miseravel. Não penses que não vais ter filhos para não cometeres os mesmos erros do teu pai.

É que tu e o teu pai são pessoas diferentes! Por isso GK não deixes de fazer certas coisas a pensar que vais falhar ou por receio que não dê certo.

És como és. Sente orgulho em ti pelo que és.

Beijo grande!

Lu.a disse...

Sente orgulho pelo que és, quer seja bom, quer seja mau, és assim e ponto final!
E tenta abrir um pouco mais o coração...( e não estou a referir-me à tua relação com o teu pai), mas á tua relação CONTIGO PRÓPRIA e com os que te rodeiam! ;)

Pisces Girl disse...

GK: Já sabia que a relação com o teu pai não era boa, mas nunca pensei que tivesse chegado a este ponto...

Força, terás sempre o meu apoio!

Um beijinho grande,

Pisces Girl.

marco disse...

força...ainda bem que deitas tudo ca pra fora...nao deixes que essas tristezas e magoas fiquem dentro de ti...força é o que te desejo e coragem...beijus

Carracinha Linda! disse...

Olá...

como esão as coisas?

Bjs

GK disse...

Olá,
Obrigada a todos.
Carracinha, as coisas estão como sempre estiveram. Se te referes especificamente à minha família, digo-te que eu e o meu pai voltámos a ignorar-nos eficientemente. A diferença é que ele tem de ter mais cuidado com a saúde e há responsabilidades que a minha mãe me está a pedir que assuma...
A verdade é que, às vezes, me sinto cansada de tudo isto. Muito cansada.

Beijinhos a todos e obrigada.