terça-feira, outubro 02, 2007

London 2007 (6)

Na Terça-feira fomos ao Wembley!
Lendário postal ilustrado cravado - embora por motivos diferentes - na memória dos dois (minha e do meu gajo), o palco dos sonhos fazia obrigatoriamente parte de qualquer itinerário elaborado para sete dias em Londres. Íamos conscientes de que as torres já não existiam e os tijolos alaranjados tinham sido substituídos por um incaracterístico emaranhado de betão e metal, um género de construção e de infra-estrutura que, em Portugal, não era nada desconhecido. Mesmo assim, as expectativas eram enormes.
45 minutos de comboio para fora da zona 1 do Metro (o metro transformou-se em comboio suburbano) e vimos, finalmente, o estádio ao longe… tomando consciência imediata de que nos tínhamos enganado na linha!
Saímos em Wembley Central para um bairro pouco característico e pouco acolhedor, com clara “pinta” de subúrbio. O instinto (e algumas placas) levou-nos na direcção certa e, ao fim de uns 20 minutos a andar a pé, chegámos finalmente ao estádio.
Entrámos, claramente, pelo lado errado. Depois daquela caminhada pouco aliciante, a primeira imagem que tivemos daquele colosso não era nada impressionante. Tudo estava meio acabado, nada tinha um aspecto definitivo e o estádio, completamente vazio e encerrado, transmitia uma sensação desolante de abandono. Como um bibelô, bonito e pintado de fresco, mas sem chama, sem gente, sem alma. Apenas um aglomerado de alcatrão, metal e betão. Adormecido.
Apanhei a desilusão de uma vida.
Sonhei tanto com o Wembley e vê-lo assim, novo, mas sem cor, sem espírito, sem personalidade, atacou o mais básico do meu ser. Estava destroçada.
Não me interpretem mal. O estádio é giríssimo. É novo, enorme, bem desenhado. Impressionante, se olharmos para ele como um qualquer estádio. Mas aquele era O WEMBLEY! E o que fizeram foi matá-lo, sem dó nem piedade. Acabar com tudo o que existia de autêntico, de único, de vivo nele. Agora é mais um estádio, como tantos outros.
O MEU Wembley já não mora ali.
Prometi solenemente voltar quando ele estiver cheio e tentar descobrir a alma que eu desconfio que lhe mataram. Prometi voltar quando não se conseguir vislumbrar qualquer pedaço de jovem alcatrão e quando as paredes brancas estiverem cobertas com as cores das gentes que lhe encherem as entranhas e o silêncio castrador que eu lá ouvi for substituído por um qualquer cântico entusiasmado, alusivo ao que se for passar lá dentro.
Não consigo aceitar que o palco dos sonhos tenha morrido assim, às mãos de homens que julgam saber projectar o futuro e se esquecem que os sítios têm karma. Não aceito que este seja o Wembley. Tenho de lhe encontrar a alma, ainda que enterrada em quilómetros de betão e metal.
Voltarei lá, numa busca talvez infrutífera, mas só depois de o ver sem ser ao abandono, poderei decretar-lhe o óbito sem remorsos… mas com muita mágoa.
Ao lado do Wembley, com um ar de tia velha, encontrámos a Wembley Arena. Ali, sim, há alma. Velha, talvez, mas sábia. Ali ouve-se música, brinca-se com uma fonte de repuxos, fotografa-se a praça da fama, onde a Madonna, o George Michael e a Kylie Minogue (só para mencionar alguns) deixaram gravadas as suas mãos. Ali, sim, há “música”.
Depois de largos minutos a brincar com a fonte de repuxos, que qualquer um pode controlar, pisando uns largos botões no solo, dispusemo-nos a abandonar aquele local. Eu levava um peso no coração, apaziguado apenas pela lindíssima arena (lindíssima não objectivamente, claro) que salvou um pouco do meu olhar sobre o Wembley.
Fotografei o colosso a caminho de Wembley Park (a estação de metro certa). Consegui admirar-lhe a infantil beleza e esquecer um pouco do meu sofrimento. Acredito até que, se tivéssemos entrado na zona pelo sítio certo, a desilusão teria sido menor. Menor, nunca nula!
Como tínhamos comprado one day travelcard do metro para zonas “fora da cidade”, decidimos passar mais uma hora dentro dos túneis dos comboios e rumar para o outro extremo de Londres.
Também num subúrbio fica a Millenium Dome, designada habitualmente por O2. Plantada à beira rio (do outro lado do qual se vislumbra a lixeira municipal de Londres!), a O2 é um monumental recinto de espectáculos. Tem um aspecto de tenda futurista gigante e descobre-se logo à saída da estação de metro de North Greenwich, outro colosso da arquitectura e da engenharia.
Desta vez, aparte do próprio local físico escolhido para colocar aquela infra-estrutura, tudo era impressionante. A estação de metro, a O2, o gaizer artificial que dava as boas vindas aos transeuntes, os painéis cravados na parede que traçavam a história da música moderna… Tudo tinha um aspecto adolescente e ainda em busca de uma identidade, mas a O2 é, de certeza, um adolescente determinado e com grandes sonhos e objectivos. O espírito do local era descontraído e apontava para um enorme gosto pela diversão.
Naquele dia, os preparativos que se viviam no recinto prendiam-se com mais um espectáculo das “21 nights at the O2” que o Prince apresentava naquela altura.
Demos uma volta pelo recinto e descobrimos, ao lado da O2, The David Beckham Academy em grande actividade. Cercada por uma enorme rede azul (obedecendo à estética de todo o local), a escola de futebol deixava adivinhar o que se passava lá dentro através dos ecos das vozes amplificadas e da quantidade de carros estacionados à porta.
Descobrimos também a doca da O2, que eu já sabia existir. Não sabia era que havia “expressos” aquáticos de volta a London Bridge. Claro que decidimos imediatamente que voltaríamos à cidade daquela forma.
A viagem foi alucinante. Num barco a alta velocidade, vimos toda a zona de Greenwich e também de Canary Whorf, a área financeira de Londres, o único bairro com arranha-céus da cidade. Em poucos minutos vimos a Tower Bridge aproximar-se de nós, sempre lindíssima com os seus azuis resplandecentes debaixo do tímido sol londrino.
Saímos numa já conhecida praça junto à London Bridge, em Southwark do meu coração. Desta vez consegui passar ainda pela Hay’s Galleria antes de apanhar o metro para Earl’s Court.
Era tardíssimo, mas conseguimos almoçar no nosso bairro. Depois só tivemos tempo de ir ao hotel trocar de roupa para nos dirigirmos ao Royal Albert Hall.
Aquela era a noite que o meu namorado tanto antecipou, a verdadeira razão da nossa viagem a Londres. Às 19h30, nos Proms, tocavam Tchaikovsky e Prokofiev, a London Symphony Orchestra, dirigida pelo maestro Valery Gergiev, e o pianista russo Alexander Toradze.
O recinto estava cheio com a “nata” da sociedade britânica tradicional. Não me admira nada se me disserem que ali se encontravam verdadeiros lords and ladys. Vi senhoras e cavalheiros distintíssimos, que até óculo tinham! Enfim, ali estava a Inglaterra que todos julgamos conhecer.
O meu gajo deu o dinheiro por bem empregue, já que o concerto foi fantástico, e, no fim, ficámos junto à porta dos artistas à espera dos protagonistas da noite, juntamente com mais meia dúzia de pessoas.
Naquela noite fria, vimos distintos músicos da bem paga orquestra londrina saírem vestidos com fatos de lycra florescentes de ciclistas e desaparecerem do Royal Albert Hall, a pedalar furiosamente, com o instrumento às costas! Excentricidade britânica, talvez!
O maestro e o famoso pianista saíram finalmente. Ambos pararam para dará atenção “aos fãs”.
Alexander Toradze foi um doce. Com um look que faz com que o confundam com o actor que fazia de “chefe” do MacGyver, o músico parou para conversar com o meu gajo acerca de Portugal e do professor de piano dele e fez questão de tirar uma foto connosco, os dois, distribuindo elogios e palavras simpáticas. Depois afastou-se, juntamente com o maestro e mais algumas pessoas, a pé, desaparecendo na noite.
Eu e o meu gajo fizemos, deslumbrados, o caminho de volta ao “nosso” bairro. Para o meu namorado, aquela noite foi um verdadeiro sonho!

14 comentários:

Carracinha linda! disse...

...Parece que esse dia começou com ilusão mas terminou com muita emoção!!!

É fascinante ler as tuas memórias acerca da vossa viagem. Quase que me imagino a percorrer os mesmos sítios que relatas aqui.

Beijinhos grandes

Tozé Franco disse...

A aventura continua e eu aqui a ver passar navios.
Vale a excelente descrição.
Um abraço.

Nilson Barcelli disse...

A tua reportagem é completíssima. Em texto e imagens.
Só falta... não, não digo, ainda me matavas...
Beijinhos.

kalua disse...

será que sou só eu que não consigo ler bem?!!! desconfio que há aqui algo de errado (se calhar é da minha parte, mas)... o fundo tá td em castanho com as florzinhas e as letras em azul, é mt dificil conseguir ler!!!
de qq forma ando de fugida, voltarei outro dia com mais calma... bjs

Mina disse...

Um relato bem apaixonado! O dia não começou muito entusiasmante, mas pelo que li, terminou da melhor forma...
Bom fim de semana, bjs!

SoNosCredita disse...

já tinhas isto escrito, algures, ou é tudo de memória? ;)

♥≈Nღdir≈♥ disse...

è bom voltar a passar por aki.
que fotos fantásticas.
Jinhos e bom fim de semana

marco disse...

ja q andas por ai, explica la aos ingleses que a pobre da madie nao foi raptada!

mixtu disse...

wembley, no entanto o novo tem um perfume quase similar ao anterior...

abrazo europeo

O Profeta disse...

Londres, que saudades, a última vez que lá fui foi para fazer um espectáculo na animação do casamento de um nobre inglês...


Doce beijo

Rafeiro Perfumado disse...

A menina continue a desafiar a minha jove e ainda vou ter de lhe dar umas palmadas... ;)

Gata Verde disse...

Vês como ele tem aversão a esta cidade!! Ainda bem que já desbundei por lá em tempos que já lá vão...mas com gaijas amigas!

Pisces Girl disse...

Sei que tens estado muito ocupada, mas quando escreves um post novo no teu blog?

Joanne disse...

Atrasada........ sorry! Vim cá várias vezes e pensei em ler o post, mas nunca dava tempo... enfim, aulas, sabes como é!

Mais uma vez, e torno a repetir, que bom que foi ler as tuas palavras nesta viajem espectacular! Essa semana de sonho... ai, eu imagino que tenha sido!

Fico muito feliz pelo teu namorado, a sério!... um momento desses é o momento que toda a gente merece ter... Estar frente a frente com uma pessoa que se admira até á ponta dos cabelos! ^^ (espero que seja o caso, claro) É muito especial, sobretudo por estar longe de nós, e acaba por ficar na nossa memória para sempre! Espero alguma vez me encontrar com o Bono XDD


O próximo capitulo está a ir muito bem, em breve o publicarei!
Beijos


Joanne