sábado, junho 24, 2006

Partilhar...

Quando era miúda tinha problemas em partilhar. Não, não tinha qualquer problema em partilhar lápis, canetas, borrachas ou bonecas. Tinha problemas em partilhar o que me ia na alma…
Não contava a ninguém as coisas que me eram verdadeiramente queridas. O que me fazia sorrir. O que me fazia chorar.
Havia várias razões para essa reserva. Duas são, no entanto, as principais: achava as minhas ideias ridículas e não gostava de “importunar” as pessoas com elas.
Fui crescendo e as vitórias foram-se tornando solitárias.
Nunca me furtei a viver, mas partilhar conquistas quando ninguém sabia o valor que lhes atribuía era ridículo.
Isso foi mudando. A idade traz sabedoria e, suponho, relações de amizade mais sólidas...
Agora partilho o que me vai na alma. As pessoas têm acesso ao que me é querido. Eu falo. Conto. Rio. Choro.
As conquistas, no entanto, continuam a ser solitárias. Não sei porquê. Muitas das “minhas coisas” continuam a ser muito minhas… (Suponho que todos somos assim…) No entanto, já consigo partilhar o sentimento de vitória e consigo que as pessoas o percebem…
Tenho o orgulho de dizer que o faço que algumas pessoas maravilhosas. E que gosto muito de as ouvir relatar as suas conquistas.
Talvez por isso me choque um pouco quando alguém aparenta ter-me ouvido, quando alguém me deu palmadinhas nas costas, pediu pormenores, me deu os parabéns, riu comigo e depois… descubro que não ouviu uma palavra do que eu disse… quando eu falava de algo basilar na minha existência… Existência essa que devia ser importante. Afinal, nunca é à toa que usamos a palavra amizade anos a fio!
É duro. Faz-me pensar que o ser humano é, na sua génese, egoísta. Importa o “eu”. O resto é informação supérflua. Não importa o quanto partilhámos antes. Talvez nem o tenhamos verdadeiramente partilhado… Talvez tenhamos aparentado uma partilha. Talvez andemos todos a iludir-nos e as nossas vitórias sejam, sempre e em qualquer circunstância, solitárias…
…Suponho que este texto deve ser também um “mea culpa”...

8 comentários:

rouxinol de Bernardim disse...

A amizade é uma jóia muito rara e só lhe damos o verdadeiro valor quando a sentimos... nos momentos de verdade!

≈♥ Nadir ♥≈ disse...

muito do nosso "eu" não temos coragem de partilhar... esperamos que os amigos o sintam...

Beijos e bom domingo

GK disse...

≈♥Ňąd¡®♥≈:

Há muito tempo que eu deixei de esperar que alguém adivinhe o que me vai na alma... Isso para mim nunca passou de ilusão. As pessoas não têm esse dom. E, se o tivessem, acho que a maior parte nem se dava ao trabalho...
(Isto sem desfazer na maior parte das minhas queridas amigas, que eu adoro e que, embora não adivinhem nada, muitas vezes estão atentas... e isso basta.)

MoonLight disse...

Partilhar é muito bom... É libertar o que se sente e deixar que isso se transforme nos outros... Todos sentimos diferente dos outros...E ainda bem... Assim completamo-nos! Mesmo que não te entendam, ou que não te ouçam os pormenores dos sentimentos, estão ao pé de ti... Naquele único instante! Por isso... Aproveita ainda mais... Se outros não dão valor às pequenas coisas que dás... é porque não conseguem aproveitar tudo o que de bom a vida lhes dá! Pior para eles! Fica bem! Bjs de Luz

SoNosCredita disse...

"Havia várias razões para essa reserva. Duas são, no entanto, as principais: achava as minhas ideias ridículas e não gostava de “importunar” as pessoas com elas."

conheço essas razões.

quanto ao que dizes no final:

acho que sei a que te referes.
mas nem é isso que importa.

infelizmente, temos sempre de contar apenas connosco.
porque, se umas vezes vamos ter alguém para nos ouvir...
noutras, podemos ñ ter...

talvez seja isso, egoísmo.

Joshua disse...

É preciso partilhar, mas ser escutados é muito exigente e muito raro. Partilhar com quem nos não escuta, é esbanjar intimidade.

Joaquim Santos

www.joshuaquim7.blogspot.com

badger disse...

Sendo assim... também terei essa dificuldade de partilha não?!

Muitas «coisas» não se dizem: Sentem-se!!

BEijos

gone disse...

A partilha pode ser, por vezes, tão fácil e, por vezes, tão difícil...
Mas acho que tens razão... Não vale a pena guardar tudo para nós, muitas vezes só o facto de falar das coisas parece torná-las bem mais leves... (Se bem que, às vezes é muito difícil não as manter fechadas em nós...)

Um beijinho grande!