sexta-feira, maio 22, 2009

Uma noite no cinema

INT. - Cinemas Dolce Vita Coimbra - NOITE

A plateia assiste, concentrada, ao tenso filme “Sinais do Futuro”. Os espectadores estão fechados dentro da sala escura há cerca de 30 minutos. Na tela, a personagem de Nicholas Cage, o protagonista, vive o Plot Point 1 (momento chave do filme em que a história está finalmente esplanada e algo acontece para fazer a personagem começar a agir). Nick, no ecrã, enfrenta uma tempestade no meio de uma auto-estrada. Parado no asfalto, descobre que a estrada está cortada pela polícia e saí do seu enorme jeep para ver o que se passa, sempre debaixo de uma chuva intensa e dramática. À frente dos olhos surge-lhe um enorme acidente - um auto-tanque tombado na auto-estrada - enquanto um polícia mal humorado lhe ordena que regresse ao seu carro. A banda sonora sugere o perigo em que a personagem se encontra. Atrás de Nick a ameaça surge inesperada. Um boing desce dos céus, descontrolado, a uma velocidade estonteante. Inclinado, a cair irremediavelmente, deixa que, com aparato, uma das asas abalroe as linhas de alta tensão que atravessam a via e vários carros parados na auto-estrada, que se incendeiam entre os gritos de quem sobrevive. No segundo seguinte, despenha-se numa bola de fogo. Neste exacto momento, a sala de cinema fica às escuras. As luzes de presença acendem-se timidamente. A plateia entreolha-se com surpresa. O silêncio, de início, é absoluto. Depois ouvem-se risadas nervosas. Por fim, alguém decide levantar-se para ir descobrir o que se passa. Antes do espectador fazer todo o caminho até ao fundo da sala, surge uma funcionária do cinema. O espectador fica a meio da escadaria, em suspenso.

FUNCIONÁRIA (Muito nervosa): Pedimos desculpa por este incidente. Houve um corte geral de electricidade na cidade de Coimbra. …Mas nós já estamos a tratar de normalizar a situação!

Silêncio de novo. Depois a plateia larga uma gargalhada em uníssono. A funcionária percebe “o erro” e retira-se…

FUNCIONÁRIA (Timidamente): …Com licença…

A jovem sai da sala apressada e os espectadores trocam piadas acerca das capacidades dos funcionários do cinema.

ESPECTADOR 1: Devem achar que são o James Bond… Vão resolver o blackout.

ESPECTADOR 2: O MacGyver! Pensam é que são o MacGyver…

E a plateia volta a rir. Mas há um nervosismo a pairar na sala.

ESPECTADOR 3 (Baixinho): Olha que o momento em que o blackout aconteceu foi bem bizarro… Fogo…

Momentos depois, a tela volta a iluminar-se para deixar ver o Nicholas Cage a correr para salvar os acidentados e as luzes de presença apagam-se. A normalidade é restaurada. Só no final do filme se voltam a ouvir comentários jocosos…

ESPECTADOR 4: Espero que da próxima vez o avião não corte as linhas de alta tensão. O pessoal que estava a ver os “Anjos & Demónios” nem deve ter percebido a causa do blackout!

Mais uma gargalhada geral e a plateia sai do cinema com um sorriso nos lábios e uma história inocente para contar aos amigos.

quarta-feira, maio 13, 2009

Preciso de FÉRIAS!!!

A dormir ou acordada, o meu cérebro anda a pregar-me partidas. Deitada na minha cama, ao acordar, ainda com a cabeça na minha doce almofada de penas, dou por mim nas Ramblas, em plena noite agitada, com ofertas de bebidas enlatas em saldos e travestis em festa. Ao acordar, os meus olhos vislumbram no tecto o Thames e a Tower Bridge. E continua. Lavo os dentes e, da noite para o dia, surge-me o odor primaveril das flores expostas debaixo do sol nas inúmeras bancas da icónica calle de Barcelona. E a sair de casa, a caminho do carro, de chave na mão, ouço o metro mais antigo do mundo e sinto o seu inconfundível tremor enquanto, na linha azul, ele pára em Piccadilly Circus. Sentada no quente dos estofos, com os sons da rua abafados, chamam-me a atenção as inúmeras vozes do Barri Gótic, dos comerciante que chamam clientes ingénuos com o engodo do desconto à Torre de Babel que são as línguas dos inúmeros turistas que por lá se passeiam à hora que devia ser da siesta. Se desvio o olhar para o céu azul, surge-me na mente a praia quase privada de Santa Cruz, na Corunha, ou a areia branca de Benidorm. Chego a sentir o calor do Mar Mediterrâneo nos pés e penso fugir da medusas. Demoro muito tempo a livrar-me destas lembranças enquanto faço o duro caminho para o escritório…
Em suma: preciso de férias!!!

quinta-feira, maio 07, 2009

Homenagem a Maria Gracinda Pechincha (Versão Editada)

Cara Prof. Maria Gracinda Pechincha,

Eu sou uma das MUITAS alunas que frequentaram as aulas de Português da Prof.. Chamo-me GK, era uma aluna pouco interessante (penso que nunca cheguei a ter mais de 13) e, olhando para trás, assumo que era também pouco ambiciosa.

Na minha turma – uma turminha “decente”, que ainda hoje deixa saudades – eu era, talvez, a menos auspiciosa no que diz respeito ao bom uso da Língua de Camões… Lembro-me até de ter tido um “Mau” num mini TPC. Recordo-me muito bem de chorar na casa de banho cheia de vergonha, mais pela mácula no meu CV sem história (boa ou má) do que por achar que isso teria alguma repercussão no meu futuro.

Mas esse tal futuro é, sem dúvida, um diabrete e quis o destino (ou a minha indecisão) que eu me tornasse numa das muitas jornalistas miseráveis desta cidade, sendo a minha ocupação diária… escrever.

No curso de Comunicação Social, professores e colegas eram unânimes ao afirmar que eu “escrevia bem”. Não era um grande elogio. Eu não “escrevia bem” como a Isabel Allende ou o Eça. Eu escrevia bem porque não punha vírgulas entre o sujeito e o predicado e não trocava as concordâncias... Era clean e eficaz. Escrevia qualquer coisinha sem hesitar. …Foi a primeira vez que percebi que os textinhos de 8 linhas que a Prof. nos obrigou a escrever todos os dias durante 3 anos serviam para mais do que desabafar sentimentos no papel (função já de si muito útil para uma adolescente)…

Fui jornalista. Pelo meio terminei o curso de Comunicação Organizacional. Entre o jornalismo e as Relações Públicas, consegui estar, ao todo, dois anos desempregada (em períodos distintos). Não parei. Escrevi um filme, alinhavei uma peça de teatro e, além dos cinco blogs de que sou autora, estou actualmente a terminar um livro. Nada disto são grandes obras. São antes brincadeirinhas de quem não consegue… não escrever! PRAGA pela qual responsabilizo a Prof..

Sou o que se pode chamar de uma pessoa sem qualquer tipo de talento, mas com uma enorme capacidade de trabalho. Não desperdiço NADA do que a vida me ensina e, talvez por isso, sou aquela que, volvidos 13 nos anos desde que nos despedimos, continua a achar que a Prof. Gracinda Pechincha foi das melhores coisas que nos aconteceu na vida. …E está na altura de o agradecer.

A “Stôra” Pechincha tentou ensinar-nos cultura geral numa altura em que já não se trabalhava para saber, mas para passar em exames. OBRIGADA. A “Stôra” Pechincha ensinou-nos a ler em vez de passar os olhos pelas histórias sem querer medir o peso das palavras. OBRIGADA. A “Stôra” Pechincha ensinou-nos a tirar o significado das palavras que são ditas e das que não são ditas num texto ou num discurso ou numa conversa. OBRIGADA. A “Stôra” Pechincha ensinou-nos a escrever com o seu TPC fetiche (textos diários de 8 linhas). OBRIGADA! A “Stôra” Pechincha ensinou-nos a PENSAR sem medo e sem censura! MUITO, MUITO, MUITO OBRIGADA!

Acredito que aprendi muito, muito, muito do que me tentou ensinar e que a minha vida foi TOTALMENTE alterada por isso. Não tenho dúvidas de que ainda hoje continuo a aprender com as lições que me deixou entranhadas na pele. E por isso agradeço e agradecerei SEMPRE.

Despeço-me, prometendo que se algum dia alguma coisa minha for publicada farei questão de a dedicar “À minha extraordinária professora de Português, Maria Gracinda Pechincha, que me ensinou a escrever e, principalmente, a pensar”.

Um beijinho MUITO, MUITO, MUITO grande,

GK

quinta-feira, abril 30, 2009

Salvation

Todos procuramos uma salvação. Aquele caminho dourado e maravilhoso que nos leva à felicidade. Todos achamos que há algo mais do que “isto”. Nascemos para ser especiais. Apenas ainda não encontrámos a resposta, a razão para termos sido colocados neste planeta. Todos procuramos a nossa missão.
O emprego das 9h às 5h não chega para nos dar um motivo para viver, por isso, desdobramo-nos em formações e seminários, em filmes e concertos, em viagens e campanhas, voluntariados e caridades. À procura.
As artes servem-nos de escape. Desenvolvemos opiniões críticas sobre quadros, canções e filmes. Enchemos a casa de livros e documentários sobre as nossas áreas particulares de interesse. E arranjamos “projectos”.
Todos temos “um projecto” que nos vai salvar. Todos temos algo que vai deslumbrar o mundo um dia. Algo que, invariavelmente, não chega à luz do dia devido a uma secessão de desculpas mais fáceis de inventar do que admitir a verdade: a falta de talento.
Todos acreditamos que a nossa “oportunidade” está ao virar da esquina. Todos temos a certeza de que somos a próxima grande estrela planetária que vai inspirar as pessoas e quem não percebe isso é porque não nos percebe de todo.
Depois há aqueles dias em que alguém viu “o projecto” e não se deslumbrou. Ou em que a nossa opinião crítica foi ridicularizada. Ou em que alguém concretizou algo que nós continuamos a tentar concretizar. Aqueles dias em que palavras sábias ecoam no nosso espírito com conotações cruéis. Aquele dia em que alguém nos dá a “palmadinha nas costas” para não nos mandar passear e em que a palmadinha adquire o peso de toneladas e estilhaça o nosso espírito para sempre.
Nesse dia olhamos para o emprego das 9h às 5h à procura da salvação, de algo que não tenhamos visto antes, algo que sirva para nos colar os pedaços dispersos da alma. Procuramos a maturidade, a satisfação com a sorte que temos. E não achamos nada. Voltamos a olhar para “os projectos” na esperança de que adquiram novo encanto, que nos façam esquecer o golpe. E nada acontece.
A partir desse dia vagueamos pelas ruas com o absoluto sentido do ridículo, do nada em que vivemos.
É a isso, talvez, a que chamam idade adulta…

sexta-feira, abril 24, 2009

Este fim-de-semana...

Workshop "Argumento"

Descrição:
Como se escreve um guião? Como se conta uma história em Televisão e Cinema?

Conteúdos Programáticos:
O cinema e a televisão são formas de comunicação contemporâneas, que no nosso século tiveram de inventar a sua linguagem. Neste curso estuda-se como se tem definido e transformado a escrita própria de textos destinados a serem filmados. Trata-se de um género que só pode ser compreendido por relação com a narração e o drama. Para compreender a «narração dramática» dos guiões, trabalham-se as teorias clássicas da narração, as estratégias narrativas de vários tipos de filmes, as personagens, as cenas, os diálogos e técnicas específicas de manipulação do espaço e do tempo. Tudo isto será desenvolvido a partir das sinopses previamente enviadas pelos participantes.

Pré-Requisitos:
Os participantes deste workshop devem enviar com antecedência uma sinopse, de modo a tornar o workshop o mais interactivo possível. A sinopse deve ser uma página, com sinopse original de um filme de ficção, atenção que não é de um filme já feito, mas sim um filme que imaginaram, com princípio, meio e fim. A organização fornecerá a morada de correio electrónico para este envio.


Outras Informações:
Datas - Sábado 25 e Domingo de 26 de Abril 2009
Horário - 9h às 13h e das 14h às 20h
Lugar - Edifício AAC
Limite de Participantes - 20
Horas de Formação - 20
Frequência Mínima - 70%
Preço Workshop - Sócios CEC/AAC 40€ Público em Geral 50€

quinta-feira, abril 16, 2009

Condutora de fim-de-semana?

Situação 1:
Numa noite chuvosa, conduzi alegremente o meu gajo e uma amiga até um retail park nos arredores da cidade. Fiz o caminho e estacionei sem qualquer hesitação. Saímos todos do carro em amena cavaqueira e, quando se fecha a última porta, o carro começa a deslizar para a frente... Pergunta do gajo, quando eu já me estava a enfiar dentro do carro e a puxar o travão de mão:
_Então, não travas o carro?!
Sim, normalmente…
…Dah!!!

Situação 2:
Ao fim de dois meses a estacionar numa estrada a subir perto do ginásio, eu faço o difícil exercício de fazer uma inversão de marcha difícil no meio dessa estrada inclinada para estacionar num lugar vago logo ao início da rua. No passeio, à minha espera, está uma colega da aula de Corpo & Mente. Eu alinho o carro com o da frente e começo a manobra. Os lugares costumam ser grandes e, apesar do declive, costuma ser facílimo estacionar ali. O que eu não contei foi com a p*** da árvore que estava no canteirinho atrás do carro da frente. Escusado será dizer que teria estacionado à primeira, se a roda da frente não esbarrasse no canteiro. Ora, nas tentativas de pôr o carro direitinho e super confiante da grandeza do lugares, bato no carro de trás com um barulho condizente com a trombada...
Saí do carro para verificar os estragos, mas nenhum dos dois tinha qualquer arranhão.
Tirei o carro daquele lugar e tentei fazer uma manobra semelhante mais à frente, já sem canteiro. Mas, toda a tremer e com lágrimas nos olhos, é difícil ter atenção às referências. Não consegui…
Durante este tempo todo, a minha colega olhava para mim do passeio. Disse-lhe adeus e desisti.

Situação 3:
Chuvia a cântaros. Na tentativa de me molhar um pouco menos, à hora de almoço, decidi estacionar bem à frente da minha porta em vez de deixar o carro nuns lugares ao cimo da rua. Por isso, pela terceira vez na vida, fui fazer a inversão de marcha num larguito logo a seguir à minha casa. A rua, à entrada do largo, é estreita, em curva e tem uma inclinação de uns 35 graus (estou a exagerar, mas é bem inclinada…). Além disso, o facto de o largo ser minúsculo, ter sempre carros estacionados e não ser alcatroado (ou seja, o carro “mergulha” no largo empedrado e, para fazer a marcha atrás, sobe uma “parede” inclinada e em curva) acrescenta alguma dificuldade à manobra.
Entrei no largo, fiz a marcha atrás de volta à estrada inclinada, acertando direitinha na rua estreita e, para arrancar a subir, puxei o travão de mão, não fosse o carro bater num muro que ladeia a estrada em frente ao largo, ou pior, cair na ribanceira que existe ao lado do muro, mais abaixo. Ora, eu raramente puxo o travão de mão e enerva-me não fazer o ponto directo. Suponho que é uma questão de hábito. Mas ali, era uma questão de segurança...
Tento arrancar uma vez e o carro vai abaixo. Entretanto, um vizinho meu que vive numa das casas que dão para o largo, sai de casa e dirige-se ao carro dele (estacionado… no largo). Tento arrancar segunda vez e o carro vai abaixo. O meu vizinho entra no carro dele. Tento arrancar terceira vez e o carro… vai abaixo. O meu vizinho sai do carro dele e, junto ao meu carro, pergunta se “precisa de ajuda”… Furiosa, digo-lhe:
_Não me leve a mal, mas não, obrigada. - Na minha cabeça passam vários insultos ao macho que acha que vai salvar a dama em apuros.
Tento arrancar a quarta vez enquanto ele, lá de fora, à chuva, me diz para “virar para a esquerda”! O carro vai abaixo. Outra vez.
“Ó meu filho da puta!, obviamente que eu tenho de virar para a esquerda! Senão dou com os cornos num muro. Não te parece claro que a minha dificuldade não é virar?! F***-**! Daqui a pouco pede-me uma moedinha!” Isto passou-me pela cabeça, enquanto delicadamente lhe grito pelo vidro:
_Muito obrigada, mas eu disse-lhe que não preciso de ajuda.
“Eu sei como se faz, ó idiota! Só preciso que me deixes em Paz para o poder fazer SOZINHA!”
À QUINTA vez, arranco a grande velocidade pela rua acima, enquanto aceno um obrigado ao cromo do cavalheiro... Apenas para parar 10 metros à frente, à minha porta.
A chorar, vejo-o passar de carro por mim, estrada acima.

Não percebo qual é a mensagem do Universo. A sério que não. Estava a começar a ficar mais confiante na minha condução. É suposto eu voltar a “anhar”? Vejo idiotas na estrada todos os dias e SEI que não sou um deles. Quando estou sozinha não me acontece NADA de NADA! Mas, quando tenho testemunhas, pareço uma idiota. Se não fosse pela questão da independência, estacionava o Vermelhinho e não lhe voltava a pegar. F***-**!!! P*** que pariu esta m****!

quinta-feira, abril 09, 2009

A Crise


Numa obra pública enorme, onde têm havido diferendos quantos aos juros dos pagamentos:
Dono da obra:
Parem lá com essas confusões e ninharias. Quem vos dera que toda a gente vos pagasse a tempo como nós!
Empreiteiro: Quem nos dera que toda a gente NOS PAGASSE, PONTO!

No centro de estética depois DA PRIMEIRA SESSÃO (de muitas que se seguirão) de fotodepilação:
Cliente:
Hum… Vou pagar com um cheque pré-datado… É que este mês tive uns problemitas inesperados com o carro… Agradecia que não depositassem este cheque antes de dia X…

No autocarro, ao telefone:
Passageira:
Então não vai porquê? …Pois… Então, mas eu também não tenho dinheiro… Não, não tenho. Vou pagar com o cartão de crédito e depois paga para o mês que vem ao banco… Pois… Anda lá! É só UM JANTAR!...

MEDO!

quinta-feira, março 26, 2009

Defeito de fabrico

Tenho um defeito de fabrico. Sem dúvida. Ou me adoro e me tenho em demasiada boa conta ou, de facto, o mundo é cão e sarnento.
Sou a gaja mais social que conheço. Estou bem em grupo. As pessoas já esperam que seja eu a organizar as saídas e os aniversários. Não sei como fiquei com estas tarefas, mas o que acontece quando eu não dou notícias é receber o “nunca mais disseste nada” ofendido, como se a responsabilidade da falta do contacto não fosse sempre mútua. Por outro lado, sou a pessoa com mais dificuldade em fazer amigos que conheço. Não me dou “assim”. Não estou disponível para me partilhar às primeiras. Se não fizerem por isso, daqui não levam “nada”.
Mas quando digo “nada”, refiro-me a levarem o meu coração, a minha confiança. Não me refiro a levarem o meu carinho, o meu apoio ou as minhas palavras de incentivo. Não, essas, distribuo-as generosamente, por amigos, conhecidos e até desconhecidos. Acho que há pouca gente no mundo a fazer isso e, por isso, assumo-o como a minha missão: ser “supportive”. A claque. A que diz que “sim, é possível”sempre.
E os estanhos não me desiludem muito. Se me mostro generosa, recebo, no mínimo, um sorriso. (Há excepções, claro!, mas em geral, a simpatia humana é bem recebida…) São os amigos que me fazem vacilar, que me obrigam continuamente a ajustar as regras…
Sou a primeira do grupo a “pegar na mão”, a “dar colo”. Mesmo que pressinta muito trabalho pela frente. Por esta altura, e ao fim de uns 10 anos no mesmo grupo de amigos, já sei de cor as respostas de quase toda a gente em quase todas as situações. E, por isso, também sei o potencial de estragos que cada situação tem em cada pessoa. E por isso, em geral, dou o “colo” antes de mo pedirem.
Mas tenho limites. Cada vez mais. Não suporto re-runs. Não aceito ser mãe de ninguém por muito tempo. E parece que não perdoo que não me devolvam na mesma moeda. E, portanto, a pouco e pouco fui-me aproximando e afastando de quase todas as pessoas do grupo. Fui mãe, fui pai, fui tia e depois fui madrasta. E este é o caminho invariável. Até desistir de ter retorno. Até ser uma frustrada. Até estar, mas não estar.
Por isso, chego à conclusão de que sou eu que tenho um defeito de fabrico. Sou eu que não me adapto e que peço demais às pessoas e, ao sentir-me defraudada, ergo uma barreira emocional consciente, que tento a todo o custo manter de pé e onde bato repetidamente com a cabeça. Sou eu que devo ter um ego enorme que precisa de muito mimo, embora o sinta espezinhado quase todos os dias… Porque é a mim que me falta colo. E eu não acho justo ter de o pedir. Não acho justo que me magoem com fanfarronices, lições e desatenções. Não acho justo passar à reserva quando o umbigo fala mais alto. Não permito que me usem, abusem e depois me ignorem, tão inconscientemente como consciente foi o pedido de carinho. Não estou disponível para isso.
Ou então o meu “defeito” é mais grave ainda… Sou eu que não sei pedir / aceitar que cuidem de mim como cuido dos outros. Sou eu que bloqueio quando falo de mim, que desvalorizo os meus problemas, que sinto que os imponho quando falo deles. Sou eu que me retraio. E depois acuso quem não percebe que tenho algo para dizer… Será?
Admiram-me por ser frontal. Condenam-me por ser agressiva. E, sou, assumo. Sou agressiva. Não guardo “desaforos”, nem rancores. Sai-me tudo pela boca. Não fico a remoer muito tempo e, se fico, na tentativa de “poupar” alguém, acabo por ser ainda mais agressiva. Não gosto de paninhos quentes entre amigos, muito menos mentiras e falsidades. E, por isso, comigo, levam sempre com a minha verdade, quer gostem dela, quer não. E preparo-me para o mesmo. Mas raramente o obtenho... Parece que as pessoas não estão para se interessar o suficiente para ponderarem, avaliarem e dizerem exactamente o que pensam, doa a quem doer. Isso dá demasiado trabalho e tem demasiadas consequências. Já não há tempo para isso. Nem entre amigos…
Contas feitas, não sobra ninguém. Ninguém que partilhe da minha alma. Ninguém que a queira partilhar. Ninguém que eu permita que me descortine por muito tempo. Aos que pensam que querem fazê-lo, parece faltar-lhes sempre disponibilidade, oportunidade, paciência… ou sabedoria. Não há ninguém a quem eu, de momento, queira/consiga estender a mão no caso de estar debruçada sobre um precipício, porque não reconheço em ninguém a certeza de que não me vai largar. Acredito que o mais certo seria distraírem-se com alguma caravana que passa e esquecerem-se de mim…
E, por isso, demito-me! “A Agressiva” demite-se do cargo falso e cansado de amiga, de organizadora de jantares, de aniversários e de saídas de fins-de-semana. Demito-me de fazer mais do que os restantes. Demito-me de me envolver. De querer o grupo junto. De planear coisas a contar com as pessoas. Demito-me. Porque falhei. Falho sempre. Por isso, alguém que assuma o meu lugar.
Mas, se bem conheço os meus amigos, ninguém o fará. Porque só para mim este é o grupo A. Para os outros será o B ou C ou D… Se bem conheço os meus amigos, ninguém vai perceber que me demiti, nem querer saber porquê, nem perguntar o que estou a fazer numa tarde triste de Domingo. Não enquanto houver distracções e planos novos e namorados para jantar. Não enquanto não houver um sentimento claro de solidão ou tristeza ou uma necessidade clara de colo, de partilha. Aí, sim, alguém se vai lembrar de que eu estou sempre disponível…
Mas que digo eu? Estou a ser injusta! O defeito é meu. Estas acusações devem seguramente servir para mim também! E, por isso, sou eu quem tem de decidir se isto chega ou não chega para mim. Sou eu que tenho de assumir a minha desilusão e a minha solidão. Sou eu que tenho de saber se me vou desrespeitar novamente ao ponto de deixar que o tempo encontre uma solução qualquer, intermédia entre a partilha da alma e esta espécie de amizade… Sou eu que tenho de mudar. De partir. De viver.

quinta-feira, março 19, 2009

Carta de motivação

Ex.mos(as) senhores(as),

Escrevo esta carta, não porque ma tenham pedido, não em resposta a qualquer anúncio, nem sequer por sugestão de qualquer amigo poderoso (até porque não os tenho). Escrevo-a porque sim. Porque me parece que já nada tenho a perder.

O meu nome é GK, sou de Coimbra e tenho dois cursos superiores. Foram dois porque o primeiro não me satisfez e o segundo continua por me satisfazer. Talvez não seja a formação académica que importa, mas habituei-me a referi-la ou não tenha eu crescido na “Cidade dos Doutores”… Digo que a formação não importa porque me parece que a maior parte das empresas escolhe os funcionários atirando ao ar todos os CVs recebidos e vendo qual deles cai no caixote do lixo. Não digo isto para ofender quem quer seja, é mais porque, na minha (já interessante) vida profissional, me deparei com mais incompetência do que com gente capaz. E quanto mais importante é o cargo mais incompetência encontro… Em geral, quero dizer… Claro que há excepções. Não as há sempre?

Mas minto. Também encontrei gente capaz e dedicada... Normalmente isso passa-lhes num instante: ou desistem de remar contra a maré e passam a fazer apenas o que é estritamente necessário por não encontrarem retorno no seu investimento e empenho... ou são cilindrados e tão vergados pela falta de atenção e de incentivo que acabam por deixar de ter capacidade para se auto-motivarem e começam a acreditar que são uma corja igual aos que os avaliam.

Mas não é disso que vos queria falar. Queria falar-vos de mim. Queria dizer-vos como sou boa profissional, que enfrento desafios de cabeça erguida, que sou sociável e falo bem em público e todas essas tretas que colocamos no CV e que não significam nada se estivermos na semana do SPM. Ah! Que pecado!!!!

Perdoem-me. Não devia referir o SPM... Aliás, não devia sequer referir que sou mulher. Devia dissimula-lo, escondê-lo o mais possível com frases competitivas e tiradas jocosas, talvez a atirar para o brejeiro, em suma, devia fingir que apesar de ter mamas, também tenho tomates, como qualquer membro do Conselho de Administração da V. prestigiada empresa. Bom, assim será daqui para a frente. Perdoem-me este pequeno deslize… Tomates terei. Sempre. Embora desconfie que não chegam para esconder as mamas... Bom...

Procuro, então, o emprego dos meus sonhos. Para dizer a verdade, esta é a décima nona carta de motivação que escrevo hoje. Mas vamos lá ver se ainda consigo encontrar palavras bonitas para vos convencer de que sempre quis trabalhar na V. empresa.

...Faz mesmo o quê, a V. empresa? Ah! Desculpem… Já são muitos googlanços hoje… Já estou a confundir tudo…

Ah! Sim. Já sei o que fazem. Mas, esperem lá… Porque é que eu estou a enviar o CV para uma empresa que produz palitos em Vila Nova da Barquinha?

Ah! Já sei… Já tentei tudo o resto. Pois… Bom… O que posso dizer…? Hum… Querem mais motivação para trabalhar na V. empresa do que a conta bancária a zero? Do que sentir-me inútil e desesperada à espera de alguém que me dê uma oportunidade? Do que ter o pai e mãe a perguntarem-me todos os santos dias porque é que eu continuo de roupão sentada ao computador em vez de andar de blazer a entregar CVs de porta a porta (não entendem que os tempo mudaram…). Aliás, querem maior motivação para trabalhar seja para quem for que me dê um salário decente do que ter 30 anos e ainda viver em casa dos pais enquanto se acaba de pagar o primeiro carro em segunda mão, à custa de um mini-subsídio de desemprego arrancado a ferros no fim de seis meses de miséria num barracão qualquer registado como empresa, depois de cinco ou seis anos de vida profissional a recibos verdes???

Por isso, envio o CV em anexo. É Modelo Europeu. Lindíssimo. Cuidado. Elogioso. Eu diria que é perfeito. Só espero que ele tenha também o mérito de cair dentro do V. caixote do lixo na V. próxima consulta aos arquivos com o intuito de preencher uma vaga.

Com os melhores cumprimentos,

GK

quinta-feira, março 12, 2009

Eu sou um homem

As evidências iam-se acumulando e eu fingia que não via. Não achava piada nenhuma aos vídeos de três minutos com bebés a rir que as minhas amigas de trinta e pouco me enviavam frequentemente. Não me emocionava quando via um pedido de casamento. Não vivia para as dietas. Algo de errado se passava comigo...
Agora, está tudo bem. Descobri que sou um homem. As peças do puzzle encaixaram.
Porque é que sou um homem?
Apesar de não ter uma pila, falta-me, pelos vistos, o glamour próprio de uma mulher.
Não, não sinto falta dos olhares masculinos. Tenho alguns. Talvez com menos interesse do que gostaria, talvez com menos respeito, talvez com menos delicadeza, mas eles ainda existem. Sinto é falta dos olhares femininos. (Evidência de que sou um homem?)
São as mulheres que nos “validam”. São as opiniões das amigas e conhecidas que nos dão confiança. São os olhares de inveja que nos dizem que “estamos bem”. E esses faltam-me.
Ao que perece, eu devia estar MUITO preocupada com a minha dieta. Sou uma criminosa por comer um bitoque. No entanto, já não aguento que me julguem por isso. Falta-me a paciência para estas conversinhas de merda em que as opiniões saem directamente das revistas de moda. Por isso, proibi-as.
Deixai-as ser miseráveis. Eu vou continuar a deliciar-me com os meus fritos e doces de vez em quando - que não como quando tenho uma crise emocional, mas sim, lá está, de vez em quando, porque gosto! - enquanto reduzo e tonifico o meu rabo (já de si não muito grande) paulatinamente nas aulas de Corpo & Mente, em vez de procurar o caríssimo Liposhaper, que proporciona um corpo lindo em três semanas e te deixa continuar a ser a “falsa magra” do costume. (“Falsa magra” é outro termo que aprendi nestas conversas da treta...)
Ao que parece, o facto de eu não borrar a cara todos os dias com cores berrantes faz com que eu fique “linda” quando me visto de Amy Winehouse” no Carnaval, apenas porque “nunca ninguém te viu com tanta maquilhagem”… Bom, se eu preciso de me vestir de Amy Winehouse para ficar “linda”, alguém precisa de usar óculos. Definitivamente.
A maquilhagem é também, pelos vistos, o motivo único pelo qual um homem olha para uma mulher. Só pode. Já que só eu e outra amiga de cara lavada é que nunca entramos na equação quando alguém do outro lado de um bar olha para a nossa mesa cheia de gajas.
A roupa também não me deve assentar lá muito bem. Não visto marcas. Ninguém inveja os meus tops da Zara, as minhas calças da Bershka ou os meus casacos da Stradivarius, embora eu os encha sem recurso a artifícios e os combine com reconhecido cuidado.
Em resumo, ou eu não tenho um conceito distorcido do que é ser MULHER (com M grande, com TUDO grande!) ou gaja não sou.
...Por isso, devo ser homem. ...Até já estou a pensar mudar o meu nome para Camões…
;)

quinta-feira, março 05, 2009

10 anos depois

Passaram 10 anos. E, se me perguntarem o porquê de tudo aquilo, eu nem sei responder. Não era o meu género de música. Nunca me derreti perante homens bonitos. E, sei-o agora, não conheci aquelas cinco pessoas assim tão bem. Mas, na altura, bastou um encontro, uma entrevista, para não conseguirmos esquecer cinco personalidades que, por muito que se tentassem mostrar seguras e confiantes, cativaram-nos mais pelos seus medos e pelas suas inseguranças - que transpareciam através das palavras feitas que debitaram durante toda a entrevista - do que pelas suas falsas certezas e ambições.

Seguiram-se três anos numa montanha russa de emoções. Viajámos pelo país, chamámos a maior parte do staff pelo seu primeiro nome e conhecemos dezenas de jovens apaixonadas pelos cinco rapazes ou apenas pela sua fama. No fim, queimámo-nos, derretidas contra a chama de uma celebridade excessiva e com os limites, os enganos e as frustrações que ela trouxe, que, mesmo depois de não podermos entrar nos camarins, nos atingiam a cada olhar das “nossas” estrelas.

Reflectimos, chorámos, amámos à distância e trouxemos para casa, acabado o circo, um sentimento de injustiça, de tristeza, de algo belo caído por terra, destruído, espezinhado pela falta de experiência de uns e a falta de escrúpulos de outros que exploram até à exaustão a vida de pessoas que tiveram a ousadia de sonhar.

É abstracto, talvez, este texto. Como abstracto continua a ser aquilo que sinto quando penso na época que percorri o país à boleia, a viver uma adolescência tardia que não sei justificar. Mas se me perguntassem se valeu a pena eu diria que, sim, valeu a pena! E, se me perguntassem se conseguiria repeti-lo eu diria que não, não poderia repeti-lo, porque a ingenuidade partiu e os olhos abriram-se. Mas se me perguntassem se gostaria de tentar repeti-lo eu diria que sim, gostaria de os ver juntos outra vez, porque estamos todos mais crescidos, a vida tem outro sabor e era engraçado ver como nos portávamos todos outra vez.

As lágrimas seriam certamente menos, as emoções mais contidas, as histórias deixariam de ser abstractas e confusas e passariam a ter um toque consciente de rebeldia, de teimosia. Seríamos apenas uns doidinhos em busca de um passado que já não se agarra. Um grupo de fãs poderosos, que diz ao chefe, com um sorriso desafiante, exactamente onde vai nesse fim-de-semana, em vez de fugir de casa pela janela ou de dizer à mãe que vai dormir a casa da amiga, apenas do outro lado da cidade, quando na verdade vai correr para o Norte para se enfiar, durante horas, em mais uma discoteca, em mais um hotel, na esperança de obter uma palavra, um olhar que justifique tudo aquilo.

Agora já não precisamos de justificações. Já não inventamos desculpas. Já não exigimos respeito quando duvidamos do respeito que temos por nós próprios. Vamos, sim, ver os Excesso mais uma vez. Vamos porque queremos. Vamos porque nos faz sentir bem. Vamos porque gostamos deles sem reservas e quem não quiser perceber ou aceitar isso, quem exigir justificações e respostas crescidas e racionais, pode ir plantar batatas ou dar uma voltinha ao bilhar grande...
…Iríamos ver-vos outra vez… se vocês quisessem…

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Alma gémea

Há dias em que o sol brilha fora da janela e a escuridão aniquila o coração dentro do peito. Dias em que o olhar não encontra repouso, em que os sinais não são lidos e os pedidos de ajuda ignorados. São dias em que a solidão toma conta do corpo e da alma e a capacidade de resistir vai diminuindo até ficar totalmente prostrada aos pés de quem caminha sem olhar para trás, sem estender a mão, sem perceber que o outro se está a perder nas entrelinhas de uma vida que lhe passa ao lado, de uma longa e eterna luta para manter a esperança, em suma, de uma enorme perda de tempo.
Se existe solidão tão grande também tem de haver o antídoto.
Suponho que a alma gémea é isso: é nunca mais estar abandonado(a) na solidão.

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Ricardo Afonso - Portuguese actor in London

Ricardo Afonso é o protagonista do musical dos Queen ,"We Will Rock You", em cena no West End, em Londres, mais exactamente no Dominion Theatre, em Tottenham Court Road. Fui ver o espectáculo (que é fabuloso) e fiquei MUITO impressionada com o actor principal (e com todo o elenco, para dizer a verdade!). Só depois descobri que É PORTUGUÊS!
Durante bastante tempo escrevi e-mails a recordar o Ricardo Afonso cada vez que a Comunicação Social falava de portugueses bem sucedidos no estrangeiro e se esquecia dele. Recentemente, fui vingada! A RTP deu esta reportagem.
Parabéns, Ricardo Afonso! Sou tua fã.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Escrever

A modos que… não me apetece escrever hoje…
Quer dizer, apetecia-me passar estes dias de chuva aninhada numa casa que fosse um lar a escrever, sim, ficção, longa, em prosa. Um romance, um filme, um livro, grande, interminável, saído da minha imaginação.
Já não acredito nas minhas obras adolescentes. Não foram escritas nos teen years, mas são adolescentes, sim, com motivações adolescentes e pensamentos adolescentes e desenvolvimentos adolescentes.
Preciso de me dedicar a uma obra de que não me envergonhe. Grande, sólida, completa. Que me esgote e me faça renascer.
Quero voltar aos sonhos privados e pecaminosos de pôr no papel estórias que revelam mais de mim do que os meus desabafos. Quero sentir-me desafiada pela minha própria imaginação, quero deslumbrar-me no que descubro sobre mim quando penso que ninguém está a olhar. Quero arrancar, lá bem do fundo da alma, uma história grande que me envolva e me transporte para outra realidade… para conseguir continuar a suportar esta. Quero conhecer novas personagens, atirá-las ao mundo e deixar que ganhem vida própria e que sejam elas a decidir o seu destino.
Quero passar novamente por esse processo atroz e devastador que é criar.
…Mas esse não é o meu day job e a criatividade exige disponibilidade que eu não tenho…
Por isso, hoje não me apetece escrever. Cansei-me de escrever ninharias com os desabafos do costume (por muito que eu tente, os desabafos saem iguais aos do costume) e que sei serem escritas para serem lidas. Cansei-me, serenamente, de pôr frases sem consequência no papel. Cansei-me de mim dos meus desabafos.
Por isso, hoje não. Escrever. Não quero.

(Nota do autor: Respondi aos comentários do post anterior. Obrigada a todos.)

sexta-feira, janeiro 30, 2009

The gym

Tinha de me mexer, gastar energia e tonificar o corpinho que já se sentia à beira de um ataque cardíaco, portanto, inscrevi-me num ginásio. Nada mais normal nos dias que correm. No entanto, eu nunca fui normal…
Toda a vida me rebelei contra os ginásios. Detestava-os. Perdoem-me a franqueza, mas, para mim, salvo raríssimas excepções, eram armazéns de pedaços de chicha mais preocupados com a estética do que com a saúde, onde se juntavam um monte de máquinas inúteis que serviam para reproduzir “in vitro” tudo aquilo que se podia fazer no mundo, caso estas pessoas de palas nos olhos decidissem explorá-lo. Mas, claro, no mundo real, a arte do engate é bem mais complicada, até porque as vítimas se espalham mais, em vez de ficarem ali à espera das abordagens alheias.
Claro que esta minha forma de ver as coisas foi sujeita a enormes evoluções. À medida que a vida adulta ia tomando conta do pessoal que anteriormente fazia piqueniques no Choupal ou marcava tardes na piscina municipal, tornei-me menos radical e percebi que tinha de existir um lugar, concentrado, onde os workaholics, normalmente pessoal sedentário com vidas feitas em escritórios, se pudessem mexer um bocado. Mas eu não queria fazer parte desse mundo. Para mim, mexer era lá fora e sem rotina!
Pela boca morre o peixe e chegou a altura da minha vida em que tenho um emprego fixo e em que me sento ao computador sete ou oito horas por dia. Quando levanto o rabo da cadeira do escritório, sento o rabo no carro para conduzir até algum sítio onde o meu rabo se volta a sentar, seja no auditório do cinema, nas cadeiras do restaurante ou no sofá de casa. As tardes na piscina deixaram de existir, bem como os piqueniques no Choupal e até as maratonas de compras na Baixinha ou os passeios à Mata de Vale de Canas. Ao fim de semana, em vez de correr na praia, ou fazer caminhadas em centro históricos, a maior parte dos programas incluem apenas pôr-do-sol, jantar e café.
Ora, o meu rabo começou a refilar quando o enfiava dentro das calças habituais, os espelhos da lojas de roupa já se riam de mim quando era obrigada a mostrar-lhes as pelezitas caídas dos braços, barriga e outros sítios mais emblemáticos. E eu comecei a não gostar nada de mim. Não comer e não dormir também não me pareceu natural. Não o fazia por querer, mas como não gastava energia NENHUMA, simplesmente não tinha apetite e rebolava na cama à noite. E não vale a pena falar dos problemas acrescidos que a falta de auto-estima traz às pessoas…
Rendi-me.
Máquinas, cardio funks, racings e aeróbicas não fazem o meu género. Eu não preciso de me cansar ou de me desafiar. Eu preciso de me mexer, de respirar e de ter tempo para me encontrar. Por isso, dei Graças a Deus pela moda do Pilates e do Corpo & Mente. São coisas que sempre fizeram sentido para mim e só lamento estarem associadas ao espaço confinado e culturalmente questionável do ginásio…
Inscrevi-me.
E depois chorei.
Chorei que me matei. Porquê? Porque apesar de saber que os benefícios serão imensos e mesmo conseguindo passar por cima das desvantagens de andar a correr para o outro lado da cidade duas vezes por semana, com horários e saídas apressadas, e embora até consiga encarar com coragem o facto de esta ser mais uma merda que exige disciplina (é que eu tenho disciplina DE SOBRA, não pedi - nem queria - TANTA DISCIPLINA na minha vida!), não consigo apagar a ideia de que esta é mais uma daquelas situações que me obriga a admitir que sei exactamente onde vou estar semana após semana após semana após semana... E essa é maior sensação de fracasso que tenho memória.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Barack Obama

Resisti. Coloquei entraves mentais. Justifiquei que seria um ser humano como outro qualquer, não um santo. Coloquei sempre um “mas” antes de lhe gabar os feitos. Mas não consegui manter-me firme.
Sou fã de Barack Obama. Essa pop star americana que nasceu perante os nossos olhos, vindo sabe-se lá de onde, e que ascendeu ao poder sem que nada o fizesse prever. Um negro na Casa Branca. Um homem que fala de liberdade e comove quem o ouve. Um ser sublime que se expressa com a pose de um rei, destilando palavras queridas ao povo.
Sentada à frente do computador, com o cérebro no sítio, pergunto-me ainda: será que devemos depositar a nossa esperança num político? Será que não aprendemos nada? Será que a perda da inocência não nos abriu os olhos? Ou somos ainda inocentes? Acreditamos ainda que há um profeta, surgido das cinzas de um mundo vil e viciado, que nos virá salvar? Esse Jesus Cristo negro terá de fazer milagres em todo o mundo para conseguir sarar as feridas deixadas por anos de perversões, disputas e maldade…
Mas é isso que Obama promete. Ou antes. É isso que ele pede que o ajudemos a fazer: agarrar com as duas mãos a responsabilidade que lhe atiramos e fazer dela nossa também, para podermos curar os vícios de um mundo que cada vez temos mais dificuldades em amar.
Barack fala da América e comove o mundo. Fala como só conseguíamos, até aqui, sonhar ver um político fazer. Cada frase, sem dúvida mil vezes discutida e alterada com a ajuda de um staff profissional, atinge-nos, a todos, como um raio. Parece que nos lê os pensamentos. Aqueles que já temos vergonha de partilhar por serem utópicos, estúpidos de tão ingénuos. Diz-nos o que queremos ouvir. Mas fá-lo como se lhe saísse da alma, em vez de nos dar uma daquelas mensagens ensaiadas e falsas a que tantos outros nos habituaram e que aprendemos a ignorar. E, a mim, esmagou-me o facto de tantos, tantos, tantos no mundo quererem ouvir o mesmo que eu!
Estamos todos FARTOS! TODOS! FARTOS!
Estamos fartos da guerra do petróleo e dos vícios da bolsa, da clivagem anormal entre ricos e pobres e das injustiças sociais, dos valores impostos por tiranos legitimados por grandes democracias e das mensagens vazias dos que nos matam quando prometem proteger-nos. Estamos fartos de cinismos e mentiras, de vícios e falsidades, de esquemas e promessas, da vergonha, do crime e do medo.
Será Obama capaz de nos libertar? Conseguirá manter-se firme nas suas mensagens e propósitos? Poderá ele sobreviver ao cargo que tanto lutou para obter e às expectativas dos que o olham como herói? E aos que o odeiam pelo mesmo motivo?
Não consigo explicar porque fiz questão de ver a tomada de posse em directo na TV, quando não o faço pelo meu país. Não sei porque devoro os discursos que circulam na Internet desta Fénix negra que nos devolveu a esperança. Não entendo como, não sendo ingénua ou inocente, me aparecem lágrimas nos olhos quando o ouço falar.
Será mérito ou apenas carisma? Será o renascer ou a morte certa? A vitória ou a derrota?
Quero acreditar que, sim!, será ele a dar-nos o sonho de que Martin Luther King falava. Será ele o tal Jesus Cristo novo que irá salvar o mundo. Será ele a conduzir-nos a uma nova era. Mas não será isso demais para esperar de um homem?

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Revolução

Estou no meio de uma revolução pessoal. De repente, uma mulher que eu não conhecia, nem sabia que existia, saiu de dentro de mim. Saltou cá para fora cheia de certezas e seguranças. Sabe o que vestir, o que dizer, como falar e como viver.
Não sei quanto tempo vai ficar, mas estou a deixá-la mudar tudo o que quiser. Ela, determinada, anda revolucionar o meu guarda-roupa e todo o meu armário da casa de banho, além do meu sótão escuro.
Dia-a-Dia, eu surpreendo-me. De onde veio esta MULHER? Digo MULHER, porque existe uma diferença entre a mulherzinha que antes habitava o meu corpo e esta, que já compra cremes anti-rugas e decidiu levar-se a sério. Já não ri das piadas acerca do seu aspecto físico, prefere investir em mudá-lo. Já não espera por companhia para fazer o que quer fazer quando o quer fazer. E, principalmente, já não perde tempo com sonhos nem quimeras, antes faz a triagem do que se pode transformar em projectos e esquece o resto.
Não sei quanto tempo isto vai durar. Não sei se ela vem para ficar ou está só de visita e até me assusta um pouco o dia em que for verificar o que resta do passado. Mas, para já, ela tem carta-branca para me reinventar. Talvez seja esta a chave da felicidade…

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Ano Novo

Não há resoluções de ano novo. Desta vez, as passas foram engolidas de forma mecânica e desapaixonada. Não há nada que eu tenha consciência de querer além dos banais saúde, amor, dinheiro e, porque não?, viagens.
Não tenho planos, nem sonhos e estou muito assustada com isso. Parece que o meu mundo estagnou e eu já não tenho energia para correr atrás de sonhos e quimeras. Estou triste e aborrecida de morte e não vejo o que posso fazer para contrariar isso.
Será tarde demais para encontrar outra vida? Onde está ela? E porque é que me aparece sempre como uma promessa não definida, uma fantasma na noite e depois desaparece sem deixar rasto…?

sexta-feira, dezembro 26, 2008

Natal

Época estúpida esta do Natal. Quem se declara católico fala do aniversário do Menino Jesus, tentando convencer os outros da divindade desse homem extraordinário, como se devêssemos festejar um aniversário de um homem, apenas por ele ter sido extraordinário. Quem se declara anti-espírito natalício não consegue, mesmo assim, deixar de se empanturrar de fatias douradas e broinhas e Bolo Rei e de mandar as 5000 mensagens a dizer que detesta o Natal, mas que, mesmo assim, pensa em quem ama, não vá o chefe ou o ex ou a tia pensarem que é uma pessoa sem sentimentos. Quem embarca em todo o espírito, abraçando as frases da época e as campanhas de solidariedade, cheio de sorrisos e sinceridade no coração, depara-se com as filas do supermercado, com a falta de tempo para escolher prendas ou cozinhar os desejados petiscos da época, com a rede de multibanco e os servidores sobrecarregados, fanados com tanta “gente de boa vontade” a comprar prendas e a mandar e-mails natalícios cheios de desejos que esquecemos nos restantes trezentos e tal dias do ano.
Detesto as prendas só porque sim, sem terem em atenção a quem se destinam. Mas também odeio que alguém se esqueça que, neste dia, embrulhe-se o que se embrulhe, convém estar algo debaixo da árvore de Natal, para que todos saibam que foram lembrados. Já não encontro significado nos cinco milhões de e-mails que recebi, mais as oito mil mensagens, não as distingo umas das outras, não sei a quem escrevi ou quem me escreveu. E, mesmo assim, prefiro esta balbúrdia ao esquecimento. Odeio as lojas e os shoppings e os cafés da esquina fechados no dia de Natal, porque não deixam outra alternativa a quem quer/precisa por todos os meios ignorar que é Natal para não cortar os pulsos. Mas, ao mesmo tempo, comove-me este tentativa geral de sossegar, de recolhimento, de silêncio, esta grande pausa universal que todos os anos somos obrigados a abraçar e que é tão marcante que, mesmo que se tente, não se consegue fugir de se sentir alguma coisa.
Detestei o meu Natal, na sua rotina idiota e embrutecedora, igual aos outros dias, mas com pausa para pensar nela. Odiei não ter comprado prendas para a minha verdadeira família, composta por seis ou sete mulheres minhas amigas que significam mais para mim do que elas sequer imaginam. Cortou-me o coração ficar em casa, sentada, dormente, em frente à televisão, sem um telefonema, uma mensagem, um encontro com qualquer delas, porque os telefonemas nestas datas fazem-se para a família-família, as mensagens mandam-se enquanto as operadoras não as taxam e os encontros com “os amigos” guardam-se para os dias em que não é Natal.
Sinto-me dormente. Tenho vontade de odiar o Natal e as suas luzes e os seus sentimentos genuínos e os seus presentes e as suas campanhas, mais o homem de vermelho e o próprio Menino Jesus, as suas obrigações e obrigatoriedades não negociáveis. E, mesmo assim, por momentos, ocorre-me o pensamento de que, na verdade, sou eu, de todos os que conheço, quem deposita mais esperanças nestes dias de pausa da humanidade, quem mais procura a perfeição dos pensamentos e as mãos dadas, quem mais espera a ternura e o carinho prometidos que insistem em escapar-me (escapar-nos…?) por entre os dedos…

segunda-feira, dezembro 22, 2008

BOAS FESTAS

CARTA AO PAI NATAL

Original: All I Want For Christmas is You
Letra: Vasco Palmeirim, el Maestro

Escrevo-te mais uma vez
Meu querido Pai Natal
Este ano portei-me bem
Nao tenho registo criminal
E há uma coisa que não esqueço
e é isso mesmo que te peço
Quero um Natal
Com a Rádio Comercial!

Quero ver o Natal nas ruas
Faça frio ou faça sol
Quero encher-me de rabanadas
Sem afectar o colestrol
Quero conhecer o Obama
e cantar com a Lenita Gentil
Quero ver a selecção
a não levar seis do Brasil
E há uma coisa que não esqueço
e é isso mesmo que te peço
Quero um Natal
Com a Rádio Comercial!

Quero sonhos e azevias
E bacalhau com pouco sal
Quero ver a Heidi Klum
Vestida de Mãe Natal
Quero a família reunida
E os presentes do costume
As peúgas, as cuecas, as meias, as agendas
E o belo do perfume
E há uma coisa que não esqueço
e é isso mesmo que te peço
Quero um Natal
Com a Rádio Comercial!

Quero visitar os meus primos de França
E eu não quero saber o quanto marca a balança
E por todo o Portugal
Ouve-se a Comercial
Não há outro som que seja mais bonito
Bonito, bonito... são as canções do Tozé Brito

Desejo sorte e saudinha
Para si e para os seus
Pra mim, quero discos de platina
E tocar nos Coliseus
E há uma coisa que não esqueço
e é isso mesmo que te peço
Quero um Natal
Com a Rádio... Comercial!!!

Bom Natal com a Comercial!!!

PS - Ouço-os todas as manhãs. Achei que era uma boa forma de desejar umas BOAS FESTAS a todos. :)