quarta-feira, setembro 16, 2009

Roma 2009 (3)








Com a magia das novas tecnologias e a promessa, no site do Vaticano, de que aquela era a maneira ideal de evitar filas, tínhamos comprado os bilhetes para os Museus do Vaticano online. Por isso, naquela Sexta-feira, o nosso destino estava já traçado.
Chegámos à Piazza Cavour por volta das 11h30. Com a certeza de que íamos ser mal tratados pelos empregados, entrámos num café. O meu gajo queria “acordar”, por isso dirigiu-se ao balcão para pedir um café… E foi recebido com um sonoro “bongiorno!” acompanhado do maior sorriso que tínhamos visto até ali por terras italianas! Feito o pedido, voltou à mesa de boca aberta. “Esta mulher devia ser despedida!”, disse-me a gozar. “Quem é que ela pensa que é a desvirtuar desta maneira vil a hotelaria italiana?!” Esperámos na expectativa. A mulher continuava a limpar mesas e balcões com o mesmíssimo sorriso simpático e cúmplice para com os clientes (na verdade, àquela hora, éramos os único clientes do pequeno café. Mas éramos o mais cúmplices possível!...) “Deve ter um doutoramento em hotelaria tirado no estrangeiro!”, concluímos.
O café chegou à mesa rapidamente… E mereceu foto! Ele tinha pedido apenas UM CAFÉ. Mas, na mesa, repousavam: um café (“expresso”), um copo, um jarrinho de água e um bolinho em miniatura. Pela módica quantia de 2 euros… Mais uma surpresa romana que não valia a pena questionar…
Andando e fotografando, percorremos a praça, contornámos o Castel Sant’Angelo, admirámos o maravilhoso anjo que o coroa, atravessámos a ponte de Sant’Angelo para Roma e voltámos ao Vaticano pela Ponte Vittorio Emanuelle II, deleitando-nos com cada escultura. Apanhámos a Via Conziliazione que liga Sant’Angelo a São Pedro e chegámos, calmamente, à mítica praça dos católicos. No total, foi um percurso pequenino, mas delicioso. Ao fim dos nove dias de férias, este estava eleito o meu local favorito, por se ter tornado tão habitual e confortável. …Ironia das ironias, eu - que não sou católica - encontrei no Vaticano o meu lugar especial em Roma… Enfim…
Debaixo de um sol impiedoso, contornámos São Pedro até chegarmos às portas dos Museus do Vaticano juntamente com dezenas de turistas suados de todas as nacionalidades. Nos e-tickets a nossa entrada estava marcada para as duas da tarde, mas nós chegámos ao local pouco depois da uma e, passado o ritual das revistas, conseguimos alcançar a frescura do lobby dos museus. Mas talvez o tal ritual das revistas mereça que me detenha um pouco…
Ora… Para se entrar em qualquer edifício do Vaticano tem de se passar por um detector de metais e, mais importante do que isso, ser aprovado pelo olhar experiente dos “polícias dos costumes”. Estes senhores, com um ar que impõe algum respeito, têm a função de deixar entrar apenas quem obedece ao dress code do Estado, a saber: nada de decotes pronunciados e os ombros e as pernas devem estar parcialmente cobertos.
Já ia avisada e, por isso, cumpri sempre o tal dress code (até cheguei a comprar uma t-shirt extra para voltar à Basílica de São Pedro). Mas, à distância de quem não está ainda a viver o momento, esta obrigatoriedade fez-me criticar e espernear contra a retrógrada Igreja Católica. No entanto, lá chegada, mesmo uma liberal como eu consegue perceber que não há neste dever grandes exageros, nem qualquer tentativa descarada de repressão por parte dos tais profissionais. O Vaticano exige um mínimo de decência e respeito e os tais polícias limitam-se a cumprir as regras e, pelo que vi, com critérios absolutamente compreensíveis… Ou seja, não é necessário usar uma burka, nem sequer calças ou camisolas de gola alta. Basta não exagerar na chicha à mostra… Calções até ao joelho e t-shirt is fine. Não me chocou nada ter de o fazer e, depois de ver quem ficava à porta, saí de lá a concordar plenamente e a perceber a necessidade desta “lei”… (Roma é quente, quente…LOL)
Conscientes de que ver os Museus do Vaticano demora muitas e muitas horas, tirámos uns snacks da máquina, comemo-los para servirem de almoço, fomos fazer o xixizinho da praxe e perdemos alguns minutos a descansar um pouco, sentadinhos apenas a curtir o ar condicionado. Depois, ganhámos coragem e atirámo-nos ao espólio inigualável que aqueles edifícios encerram.
Pagámos pelo audio guide e entrámos nas fantásticas alas determinados a esmiuçar o possível. Sabíamos que não seria realista ver tudo ao pormenor, portanto, tínhamos escolhido algumas secções favoritas: a ala greco-romana, o apartamento dos Bórgia, as salas de Rafael e, claro, à Capela Sisitina. O mapa dos museus estava extremamente bem sinalizado e as setas ao longo do percurso indicavam sempre a direcção da famosa capela.
No Vaticano há de TUDO! Tudo! Arte egípcia, sarcófagos com múmias intactas, esculturas incríveis do período greco-romano, bustos trabalhados, galeria das tapeçarias, galeria dos mapas, biblioteca, arte sacra, arte moderna, arte contemporânea… Não acaba nunca! Até os tectos e corredores são únicos! Abres a boca aqui e ali já é mais incrível. Estão lá representados trabalhos de TODOS os artistas grandes de que me lembro, pintores, escultores, todos. Alguém já viu um Dali ao vivo? Um Chagal? Uma estátua de Canova? …Brutal! É uma experiência de verdadeira humildade estar perante algumas daquelas obras! Ah! E sim, é verdade a tal história das estátuas mutiladas. Infelizmente, muitas (senão todas) as estátuas que representam nus masculinos no Vaticano têm uma parra em vez do pénis… Enfim… No comments.
Antes de chegar a extraordinária Capela Sistina, e depois de um espólio inacreditável de obras de arte, ainda conseguimos “levar” outra “bofetada artística”. As salas (ou Stanze) de Rafael! São quatro aposentos decorados entre 1508 e 1524 pelo pintor renascentista e seus auxiliares, a pedido do Papa Júlio II… Pois bem… São breathtaking! De audio guide a debitar motivos e metáforas no ouvido, ficámos, de boca aberta, a olhar para cada um dos frescos. Estavam ao alcance da mão e eram… Não há palavras! …Não estou a dar uma de culta e esclarecida, que fica horas a olhar para um quadro a fingir que percebe o que aquilo é. Não. São MESMO… Se quiserem, são, tão só, LINDOS! Delicados. Preciosos. Enterram-nos emoções na alma. É isso.
Depois a Capela Sistina.
Bom, antes de falar da Capela em si, eu sinto-me obrigada a dizer que a última coisa para a qual eu estava preparada era para ter MILHARES de pessoas enfiadas naquele espaço ao mesmo tempo. A respiração, o suor, o zumzum. MEDO! Nem acreditava que AQUILO era a Capela Sistina. Tal como no Coliseu, a sensação que fica é de ABSOLUTO respeito por aquele património! Mas adiante…
A Capela… A Capela… Sei lá. Já tanto se disse sobre a capela e ninguém está preparado para ela. Sabem o que disse acerca das salas de Rafael… Pois é. É isso. Tanta história. Tantas intenções. Tanta delicadeza. Imaginar uma série de homens, anos a fio, a colocar gesso naquelas paredes e a pintá-lo, ainda fresco, a cravar-lhe traços, intenções e emoções. Sem borrachas ou decalques. E pensar que dentro daquelas quatro paredes são eleitos os Papas. Arrepia. Completamente.
Pronto, confesso!, assim que entrei, desatei a fotografar tudo! SEM FLASH! Obviamente. Só depois vi os sinais de proibido e ouvi a gravação que exigia que ninguém fotografasse e que se fizesse silêncio…
Estivemos cerca de uma hora na Capela. Nessa hora, ela esteve sempre cheia de gente a entrar e a sair, ao ponto de não ser possível dar um passo sem tocar em alguém. Mesmo assim, ouvimos todas – a longuíssima – descrição de todos os quadros representados nas paredes e a do Juízo Final mais do que uma vez. Aquilo é verdadeiramente extraordinário! Saímos do Vaticano pela famosa espiral. Estávamos exaustos!
Precisávamos urgentemente de comida! Por isso, às 18H30 da tarde estávamos a deliciar-nos com uma lasagna na Piazza del Risorgimento! Depois apanhámos um autocarro. A ideia era ir até á Piazza di Spagna, mas antes parámos no Termini para apreciar a estação. E ela, claro!, é colossal! Parece um terminal de aeroporto! Fotografámos, apreciámos a fila do shuttle para o aeroporto, percorremos os corredores cheios de lojas fashion. Percebemos que, por dentro, o Termini é bem moderno e funcional.
Na Praça de Espanha – a tal da escadaria que Claudia Shiffer descia na Moda Roma –, ia haver um espectáculo, portanto, as escadas estavam cobertas por centenas de turistas. Parecia que todos eles já tinham ido aos respectivos hotéis tomar o seu banhinho e só nós é que continuávamos imundo e suados. Exaustos, abancámos na famosa escadaria e esperámos pelo que ia acontecer…
…Mas uma hora depois ainda nada tinha acontecido e as costas, os pés, o cansaço estavam a chegar ao limite, despertando um mau humor difícil de contornar… Só quando nos levantámos, desistindo do espectáculo, e descíamos já a enorme escadaria, pedindo perdão a cada passo por incomodar os espectadores, é que começámos a ver os artistas a entrar em cena junto à fonte. Ficámos mais um pouco. O suficiente para vermos – mal! e trás de não sei quantas pessoas! - uma coreografia do filme West Side Story. Depois um tenor, acompanhado de um pianista, a cantar uma versão – digamos – alternativa do Sole Mio. Seguiram-se outras canções folclóricas italianas e, apesar de o meu gajo ser maestro de um coro, eu fui horrível e expliquei-lhe que estava demasiado cansada para continuar ali, em pé, desconfortável e sacrificada.
Ainda tentámos jantar por ali, mas tudo parecia demasiado agreste – em termos de preço, barulho e conforto. “Façamos o que fizermos, tu falas com os empregados! Se alguém for mau para mim hoje, eu vou-lhe à tromba!”, expliquei ao meu gajo. Felizmente, a caminho do Metro havia uma pizzaria take away. Compramos umas generosas fatias de pizza e fizemos um delicioso piquenique no hotel. No final, de banho tomado, adormecemos, de comando na mão, a ver o canal Live, que passa 24 horas de concertos ao vivo.

sexta-feira, setembro 11, 2009

Roma 2009 (2)








Depois de um belo pequeno-almoço (de pão rijo! O pão do dia italiano é rijo!), dirigimo-nos a todo o gás ao Coliseu! Sair da estação de Metro e dar imediatamente de caras com aquele colosso é impressionante! Mas mais impressionante é o facto de os italianos permitirem que passem três filas de trânsito encostadinhas a um monumento com 2000 anos! Isso é verdadeiramente inacreditável!
A zona estava “a bombar”. Ali acontece TUDO. Além das centenas de carros, passam dezenas de autocarros, os habituais Hop On – Hop Off e outros autocarros turísticos e até ali param as charretes que dão a volta romântica à cidade eterna. À volta do edifício, enegrecido pela poluição, milhares de turistas descansavam, faziam filas ou aguardavam guias. Parecia a reinstalação da Torre de Babel!
Antes de chegarmos às paredes do colosso, parámos para comprar um monte de postais a um vendedor ambulante de souvenirs - italiano, mas simpático (para variar!) -, que ficou muito desiludido connosco por sendo “portogheses” termos falado inglês com ele. “Ma como?” Lá nos desculpámos, dizendo que ninguém nos percebia. Mas ele parecia ser a excepção e por isso não se conformou com a resposta. E na despedida, soltou o tradicional “Mourinho! Mourinho è portoghese, no?”
Ainda a rir e mesmo antes de descobrirmos o final da fila para os bilhetes (que se revelava bem extensa àquela hora), fomos abordados por uma inglesa despachada (e sexy! A porra das inglesas são em geral sexys! Mesmo que não sejam o modelo da perfeição, como era o caso!) que nos perguntou se falávamos inglês. Ao dizermos que sim, disparou sem hesitar, com um sotaque britânico, todas as vantagens de fazermos a visita ao coliseu com um guia, sendo a maior delas o facto de escaparmos à fila. “The ticket is 12 euros. We ask you for anather 10 for the guide, but you will know everything there is to know about the coliseum. I guarantee you, you won’t regret it!” …and we didn’t!
O guia era um italiano giríssimo que falava um inglês mafioso. Parecia que estávamos a ver um filme do padrinho! Mas falava-o correctamente, tinha a lição estudada, materiais de apoio e parecia saber MUITO sobre o assunto a avaliar pelas respostas a perguntas que não constavam no programa. Pela maneira como explicou factos e curiosidades, dir-se-ia que o Coliseu ou Roma em geral era, de facto, uma das suas paixões. Por isso, a visita foi fantástica (como também o é a história do monumento em si: http://pt.wikipedia.org/wiki/Coliseu_de_Roma). Valeu totalmente a pena, até porque, à tarde, tínhamos a parte 2, com outro guia que nos levaria ao Palatino.
Sem almoçar e conscientes de que estávamos em risco de apanhar um escaldão (o protector solar foi na mala, mas não saiu dela no primeiro dia), subimos a colina do Palatino atrás de um novo guia (giríssimo também, embora num estilo mais boyish) desta vez nascido na América, mas que era um cidadão do mundo que apreciava “o regime socialista” de Itália, “um sítio fantástico, onde tudo é possível”. “There’s a holiday for everything!”, garantia sempre sorrindo.
Palácio de César, Palácio de Augusto e, o único ainda totalmente de pé (também é incomparavelmente mais recente!), o Palácio de Mussolini desfilaram diante dos nossos olhos enquanto os nossos ouvidos captavam, em pormenor, a história da cidade e os hábitos dos seus habitantes. Refrescámo-nos nas muitas fontes da colina que foi o berço de Roma, demos mimo a um gato que habitava a Casa de Augusto, percorremos o criptopórtico que Nero mandou construir para ligar os palácios ao fórum romano e descansámos à sombra da colina antes de nos dirigirmos ao Fórum.
Visto de cima, o Fórum não impressiona. Ruínas romanas há em Conímbriga, até mais bem conservadas. Mas descendo do Palatino para o Fórum e desfolhando guias para saber a que cada ruína corresponde, começam a bailar-nos na cabeça cenas do “Ben Hur” e do “Gladiador”, com as colunas dos templos e as largas vias a comporem-se em vidas reais e projectos colossais. Impressionante! A porta do templo de Romúlo está intacta, o templo de César continua a receber flores de quem o visita, as colunas do Templo de Saturno ainda impõem humildade a quem passa… Incrível.
Depois de cerca de 3 horas debaixo de sol pesado, saímos do Fórum Romano directamente para a Piazza Veneza. Imponente, o elefante branco de Roma lá estava à nossa espera. Os romanos chamam “elefante branco” ao Monumento Vittorio Emanuele II, não só porque ele é, de facto branco, mas porque o acham pomposo e demasiado grande e, para ser construído, destruíram um bairro medieval inteiro. Apesar da má impressão que o edifício construído em honra do primeiro rei da Itália unificada deixou no romano, eu, como turista e inicialmente desconhecedora da sua história, não consegui deixar de admirar a sua inigualável beleza.
Foi sentada num café, bem em frente ao referido Monumento, a ler a sua história que eu fui violentamente roubada. Ainda sem almoço, a julgar pelas fotos da ementa, escolhi uma bela sandwish de fiambre, queijo e tomate (uma coisa assinalada como típica) e um “suco” (atenção ao “suco”, que em qualquer lado quer dizer NATURAL!) de laranja. Mas paguei ONZE EUROS E NOVENTA, por uma mini-sandwish de Panrico e por um copo de tang lanranja! E com fome fiquei! Filhos da p***! Mas não vale a pena reclamar. O erro foi meu. Devia ter desconfiado. Os italianos são vigaristas!!! É IMPOSSÍVEL fazer uma previsão orçamental, porque NADA é exactamente o que parece… Enfim… Perdoem-me os italianos que são honestos, mas, pelo menos em Roma, são uma excepção DE CERTEZA!
Estafados e esfomeados (ainda!) achámos que aguentávamos mais umas voltas pela cidade e apanhámos um autocarro em direcção ao Circo Maximo. Ora bem… O Circo Máximo pode ser impressionante. Pode… se o turista tiver a capacidade de imaginar o que ele já foi. Consulte o guia da cidade e fica a saber que o Circo Máximo foi o maior estádio alguma vez construído. Eram aqui que se realizavam as corridas de charretes que aparecem no “Bem Hur” e outras atrocidades. Fica situado num vale bem ao lado do palatino, para que os imperadores tivessem nos seus palácios uma espécie de varanda sobre o local.
O problema é que o Circo Máximo já não é mais do que uma enorme extensão relvada. Os italianos, mesmo com a sua inata capacidade de ganhar dinheiro de forma duvidosa (digo isto pela amostra que tive… Again: perdoem-me os honestos!…), não conseguiram ainda “dinamizar” o local. Podiam, sei lá, colocar umas gravuras do que se imagina que era o Circo Maximo no seu auge. Podiam contar as histórias do que se lá passou, em texto, em imagens ou de forma encenada, grupos de teatro a encenar a Roma Antiga. Até podiam colocar lá charretes para os turistas darem uma volta a peso de ouro. Mas não. Nada…
Comi uma fatia de melancia sentada no passeio que ladeava o Circo Maximo. Uma coisa óptima acerca de Roma é que há montes de banquinhas de fruta na rua. Em quase qualquer local se pode comprar fruta fresca, descascada e fresquinha, pela módica quantia de um ou dois euros. Não é mais caro do que uma sobremesa em Portugal e sabe MUITO bem no meio daquele calor todo!
Retemperada as forças com a frutinha, apanhámos mais um autocarro para nos dirigirmos à Pirâmide Cestia. Ao que consta um tipo importante, chamado Caio Cestio Epulone, que viveu por volta do século 12 A.C, deixou em testamento que devia ser sepultado numa pirâmide… e fizeram-lhe a vontade! E, se Roma é a cidade do mundo com mais obeliscos egípcios, passou a ter também a sua própria pirâmide.
Achámos que ainda precisávamos de ser deslumbrados, já que a pirâmide era menos impressionante do que parecia ao ler o guia, por isso rumámos para as Termas de Caracala!
Mais uma viagemzita de autocarro e fomos dar com as termas… fechadas. Dentro das grades que circundavam parte do recinto viam-se tendas e parafernália de espectáculos, mas não se via quase ninguém. Deduzimos que havia espectáculos naquele local, quem sabe à noite… E devia ser um cenário fabuloso. É que, apesar de não termos entrado, o tamanho do edifício chegou para nos impressionar! Construídas entre 212 e 217, as Termas de Caracala podiam acolher mais de 1 500 pessoas num edifício que media 337 metros por 328 e grande parte de sua estrutura, pelos vistos, ainda se encontra conservada, sem qualquer interferência de edifícios modernos. MUITO bonito.
Completamente derreados e a duvidar se conseguíamos chegar a uma paragem de autocarro que nos levasse “a casa”, decidimos voltar ao hotel. Mas tínhamos de jantar… Cheio de medo de enjoar a pasta e o molho de tomate (acontece a TODOS os turistas ao fim de três dias), o meu gajo sugeriu uma viagem ao MacDonald’s da Praça da República, onde eu haveria de ser maltratada pela empregada (Usual!).
Mais uma piazza impressionante! A Piazza della Repubblica em Roma é preciosa. Ladeada por edifícios altos e cuidados (um dos quais é um hotel de cinco estrelas), por outras termas (estas só levavam 700 pessoas nos tempos áureos…) e com a Fontana delle Niadi (ninfas) no centro, parece um retiro. Jantámos na rua com os olhos, cansados, poisados nas ninfas de Mario Rutelli e, apesar do barulho do trânsito, a paisagem fez-nos guardar o som das águas a borbulharem na fonte. Um retiro espiritual antes de chegarmos ao santuário do nosso quarto.

quinta-feira, setembro 03, 2009

Roma 2009 (1)






Não me apaixonei ao primeiro olhar. Não fiquei estarrecida pela beleza da cidade eterna assim que lhe senti as entranhas. Pelo contrário. Os locais de turismo massivo (como o Coliseu ou o Vaticano), começaram por me chatear solenemente, talvez porque os italianos são… hum… ESTÚPIDOS para os turistas. Sim, posso dizê-lo: são ESTÚPIDOS que nem uma porta!
Para os italianos, os turistas parecem ser um incómodo dificilmente tolerável e, portanto, não há sorrisos nem palavras amáveis. Quem trabalha na hotelaria em geral, fala MAL aos estrangeiros, chegando alguns a serem, menos do que solícitos, mal-educados mesmo! E parecem achar-se no direito de o ser.
Esta foi a Roma que me apanhou desprevenida. Mesmo com os alertas dos guias turísticos, não imaginei que fosse assim… Não imaginei que me apetecesse, em férias, ir à tromba de um empregado qualquer… Mas adiante…
Roma não é isto. Roma cresce em nós. Roma desafia-nos intelectualmente de forma tão absoluta, que, ao fim de uns dias, estamos sentados na esplanada de uma qualquer piazza e apercebemo-nos de que será depois, quando o avião já nos tiver levado a casa, quando estivermos com a cabeça deitada na nossa almofada, quando já pensarmos em encarar a rotina de trabalho que se aproxima, que a boca se vai abrir de espanto, que vamos sentir a emoção de ter visto a história da humanidade diante dos nossos olhos, que vamos sentir falta – falta palpável! – do calor, das esplanadas, das fontes, das flores e até do canto da língua que se lá fala.
Roma é colossal em todos os sentidos! Absolutamente colossal. Grande. E maior se torna com as intelectualizações do que lá há para ver… Um teatro com dois mil anos?! A sede do império Romano?!! O coração da Igreja Católica?!!! UAU! Como vivi até agora sem entender nada da História do Homem…?
Nada disto me passava ainda pela cabeça, quando aterrei no Aeroporto Leonardo da Vinci, no dia 12 de Agosto de 2009. Eram cerca das 19h locais e nós fazíamos o trajecto estudado para os “trenos” quando fomos interpelados por um italiano com uma proposta irrecusável: por 20 euros iam-nos pôr ao hotel (a Este da Citá Vaticano, LONGE, portanto) sem os “stresses” das mudanças de comboios… Conscientes de que o homem tinha exagerado na descrição dos desses “stresses”, mas sem vontade nenhuma de carregar malas através da cidade, aceitamos a oferta.
Sentados numa carrinha de nove lugares, cheia de turistas incautos e malas de todas as cores, colocámos a hipótese de termos embarcado numa cena à Luís Miguel Militão. Mas acabou por correr tudo bem… se excluirmos quarenta minutos de trajecto “a abrir” por auto-estradas com uma condução tipicamente italiana…
E atenção à expressão “condução tipicamente italiana”. Como cultura geral, talvez seja útil explicar que em Itália – pelo menos em Roma! - as regras de trânsito são um tanto ou quanto “diferentes”. Por exemplo: a buzina serve para abrir caminho; os semáforos têm, não duas, mas três hipóteses para peões (a saber: “Andar”, “Não andar”, “Andar se puder”), as cedências de prioridade e os stops são meramente indicativos e passa quem for mais corajoso; e ou se anda depressa ou se está parado. Este foi o meu primeiro “choque cultural”. ;)
Chegados ao hotel (in a flash!), fomos recebidos, sem sorrisos, por um jovem recepcionista que lá fez o enorme frete de nos fazer o check in e não nos dar as boas-vindas. Ainda assim, ficámos deslumbrados com as condições do local. Diziam-nos que, em Itália, nunca se sabe se um hotel de quatro estrelas é mesmo de quatro estrelas. Aquele era. E ao preço de um de três. O Hotel Grand Tiberio tinha-nos reservado um quarto espaçoso e muito bem decorado no seu último andar, com ar condicionado, chuveiro de massagem, chinelinhos, roupões, cremes, geles e shampoos, varanda com espreguiçadeiras e vista sobre a cidade. Um luxo! :)
Apreciada a vista e arrumadas as malas, achámos boa ideia não demorarmos muito para ir jantar, uma vez não conhecíamos a área e não podíamos correr o rico de ficarmos sem comer. Apesar de nos terem informado de que havia um autocarro que passava quase á porta do hotel, achámos melhor esperar até ao dia seguinte para comprar de manhãzinha o bilhete dos transportes válido para sete dias e ir dar uma volta a pé para conhecer o bairro.
Segundo o meu gajo: “O Vaticano é logo ali! Basta descer a rua e damos com os c***** no muro da cidade!” De facto, lá ao fundo, a cúpula de São Pedro dominava a paisagem. E então descemos. Já perto da estação de metro de Cipro (10 a 15 minutos a andar), encontrámos, aquele que passou a ser “o nosso” restaurante. Prato a 6 ou 7 euros! Um achado!
Comidos a lasagna e o tagliateli, lá fomos de encontro ao muro do Vaticano. Só faltava contorná-lo… Mais 10 minutos a andar e lá demos com a entrada dos Museus do Vaticano, mas, para achar a Praça de são Pedro, tínhamos de continuar a contornar o maldito muro.
Entrámos em São Pedro pela Via di Porta Angélica, vindos da Piazza di Resurgimiento. Estava noite escura e a Guarda Suíça, abria a cancela das traseiras dos museus pelas últimas vezes. Como nós, outras dezenas de turistas fotografavam ainda a icónica praça. Seria sempre assim que a veríamos: cheia de turistas.
São Pedro é arejado. Ao contrário do que o filme 2Anjos & demónios” dá a entender, não há muito de secreto ou fechado naquele local, nem sequer de devoto ou beato… pelo menos em Agosto. O ambiente na praça, como em toda a Roma, era leve e livre e o calor torna-a irremediavelmente informal. Os turistas sentavam-se em todas as escadas e parapeitos. Toda a gente fotografava tudo, enchiam-se garrafas de água e molhava-se a cara e o corpo com a água das fontes. A Polícia do Vaticano tinha vários carros dentro da praça, em constantes rondas, mas nunca interagiu com quem quer que fosse.
À noite, a praça pareceu-me tímida, despretensiosa, mas impressionante. As estátuas dos apóstolos no cimo da Basílica, juntamente com as dezenas de estátuas que encimam as colunas da praça a tornam São Pedro belíssima. Tudo parece harmonioso e cuidado e a Basílica, colossal no topo das escadas, é a cereja em cima do bolo. Não é Fátima em dimensão, mas também tem ecrãs gigantes. Não havia fiéis ajoelhados ou beatas de preto, mas eu também não o esperava. Aqui, o cristianismo parece sóbrio, ecléctico e de bom gosto. Discreto, subtil. Bonito.
Dez minutos antes das 11h da noite, a Polícia do Vaticano começou a fechar a praça. Fechar, quer dizer… a encerrar os pequeníssimos portões que a cercam. Não se dirigiram aos turistas, mas todos nós, ordeira e calmamente, decidimos sair do Vaticano. A visita tinha sido muitíssimo agradável. Até as regas eram subtis e perceptíveis sem qualquer esforço. E, apesar de ter passado em São Pedro quase todos os dias, esta óptima primeira impressão ficou comigo o resto da viagem.
Voltar ao hotel pelo mesmo caminho e sem a opção dos transportes públicos foi duro. O corpo dava os primeiros sinais do cansaço acumulado desde as 7h da manhã e os pés começaram a doer irremediavelmente. Pelos vistos, o nosso hotel não era assim tão perto ou então nós estávamos mesmo em má forma física. Era muito cedo para estar tão dorida… mas estava-o, de facto…

sexta-feira, agosto 28, 2009

Megera

Eu não era assim. Eu era leve, livre, sexy e divertida. Ou sabia comportar-me como se fosse tudo isso e muito mais. Sabia amar. Sabia brincar. Sabia divertir-me. Sabia rir e fazer amor.
Agora não sei nada. Quase 10 anos volvido numa relação e eu tornei-me na megera chata e implicativa, sempre com o “não faças isso”, “olha lá aquilo” e o “já te disse que”.
O meu ego reduziu-se de uma maneira tão expressiva que nem quando puxo o autoclismo o consigo ver flutuar antes de dizer adeus. O meu corpo está reduzido ao meu rabo, que eu olho com asco por o achar crivado de uma celulite grotesca. E não me importo que haja pior. As crateras das outras não me impedem de ir à praia.
Quando os amigos faltam, olhamos para o outro com mais atenção. E a minha atenção é cruel. Não para ele, mas para mim. Para nós.
Não acredito, de coração, que estejamos no caminho certo. E isso ainda me faz sentir mais culpada quando ligo o “modo megera”.
Já lhe disse que não tem de me aguentar. Já o encorajei, N vezes, a encontrar uma loura com pernas até ao pescoço e mamas de silicone. Porque, a bem da verdade, eu SÓ quero que ele seja feliz. E, para mim, ser feliz é ter alguém leve, livre, sexy e divertida ao lado.
Talvez sejam os anos que pesam. No princípio, os hábitos torcidos dos homens não nos incomodam. Sabemos lá se é para durar. Que me importa se ele arrota em público? Encolhe-se os ombros e larga-se um sorriso. Os outros sabem que ainda não existe um “nós”, aquilo não é “nós”… Mas, com os anos, as coisas tornam-se reais. Já não é uma possibilidade. Simplesmente É. E, se É, há que entrar num consenso. Mas, à boa maneira masculina, consenso é ter quem lhes dê ordens, como a mamã. E eu não nasci para isso. Se o faço, é porque me sinto sem alternativa. E eu detesto não ter alternativa.
Sou uma megera, dura, feia e envelhecida pela falta de auto-estima. E estou cansada de o ser.
Quero voltar a ser leve, livre, sexy e divertida. E, se isso incluir dar um chuto na vida, pois que seja. Se incluir gastar dinheiro em futilidades, haja ele. E se é a isto que se chama “crise da meia-idade” para os homens, pois então serei a primeira mulher a tê-la…

quinta-feira, agosto 06, 2009

sexta-feira, julho 31, 2009

Calada

E de repente, tudo muda.
Explicações? Não há. Ou antes, não vale a pena explorá-las. E essa é outra mudança.
Para alguém ávida por partilhas e cumplicidades, ansiosa por explicações e exploração de comportamento, a nova fase choca.
Não tenho qualquer interesse em conversar, em perguntar, em partilhar.
Não quero perceber nada, explorar nada, debater nada.
Não estou interessada em conclusões, porque são demasiado dolorosas e evidentes.
Era eu a chata. Era eu a que obrigava toda a gente a ver-se quando não o queriam fazer. Sabe-se lá há quanto tempo me guardavam rancor por lhes enviar os mails interessantes, por marcar encontros, por os obrigar a partilhar sentimentos.
Andava enganada. E o que não perdoo é que ninguém mo disse.
Fui ridícula.
E por isso calei-me. Acabou. Não existo mais.
Não é medida de retaliação. É antes fruto da desilusão. Que é grande demais e que não pode voltar a acontecer.
Não volto a entregar-me. Não vale a pena.
O esforço que fiz – e foi esforço – caiu-me em cima. Foi em vão.
Não vejo, de momento, como posso voltar a acreditar no ser humano.
Capitulei.
Não tenho nada a dizer a ninguém.
O mundo vive bem sem a minha voz. Afinal eu apenas achava que era ouvida.
Não serei ridícula outra vez.

…Não sei o futuro deste blog.
Por cá andarei enquanto não for um fardo.
Quando o for, ficará abandonado. Como eu.

quarta-feira, julho 22, 2009

Eu tenho dois amores...

Namorei Barcelona. Mas, num impulso, casei com Londres.
Barcelona foi um cou de foudre, uma paixão fugaz e eterna, como um amor de Verão, daqueles que ficam, lá bem no fundo da memória, como a loucura de eleição, a loucura que causará estragos sempre que aparecer na nossa vida…. O seu apelo latino e sensual ainda me povoa as noites. Imagino-me esmagada pela grandiosidade da Sagrada Família, a desvendar os segredos do Bairro Gótico ou a perder-me por entre as bancas floridas das Ramblas, a pensar como seria se eu permitisse que esta paixão se transformasse em amor… E juro voltar para descobrir…
Com Londres foi mais sério. Assim que lhe vislumbrei a face percebi que corria o risco de lá deixar a alma. A irreverência de Piccadilly. A elegância de Knightsbrigde. O ambiente boémio de Covent Garden. A ternura de Notting Hill. A história palpitante das ruas de Southwark. Londres roubou-me o coração para sempre. Nem o típico british weather me faz esquecer este espinho de não a habitar, até porque, quando me sente nas suas entranhas, ela saúda-me com um sol radioso, como que jurando que o sentimento é recíproco. E prometo amá-la para sempre.
Amor platónico? Também tenho: Vancouver (Canadá)!

quinta-feira, julho 16, 2009

Atentado à masculinidade tuga: uma mulher na estrada!

Quando um homem pára o carro ao lado do carro de uma mulher à entrada numa rotunda e é a mulher quem entra primeiro… será que lhe caem os tomates?

Quando um macho latino, mesmo que vá a pisar ovos, é ultrapassado por uma miúda… será que lhe caem os tomates?

Quando um gajo está parado num semáforo ao lado do carro de uma gaja e ela arranca antes dele quando o sinal passa a verde… será que lhe caem os tomates?

Foi uma revelação para mim que uma mulher na estrada pudesse pôr em causa a masculinidade de alguém...

quarta-feira, julho 08, 2009

Amizades circunstanciais e outras lições de vida

Andei 30 anos enganada. Achava que a vida me estava a tentar ensinar a ser altruísta, generosa, solidária. Mas não. Todo o esforço que fiz para ser menos egoísta, para prescindir do meu tempo, das minhas paixões, das minhas coisas em prol de algo ou alguém, foram genuína e totalmente perdidos. Afinal, o que a vida quer que eu aprenda é a impor limites à minha generosidade.
No good deed goes unpunished, diz um ditado na língua de Shakespeare e é verdade. Sempre que mudei de rumo por alguém, sempre que sacrifiquei os meus planos em prol de outro, sempre que dei mais, fiz mais, sofri mais… levei com o mundo na tromba. Sangrei de tristeza. De falta de retorno. De castigo maior. Até ver que nada vale a pena.
_ Equilíbrio! - Diz-me uma sábia amiga, - a vida quer ensinar-te equilíbrio entre o que dás e que precisas que te dêem.
Equilíbrio, diz ela. Com razão, talvez. Mas no meio-termo não há paixão. Não há emoção. Não há lágrimas nem gargalhadas. Há sorrisos educados. Portas que se fecham e se esquecem. E o que eu preciso é que me levem o coração e me façam arrancar a pele. E que o façam por mim também. Que me emocionem. Me amem. Me escolham.
E aqui reside mais uma fonte de frustrações. A minha vida está demasiado formatada. Educada. Já não é a adolescente que eu odiava e amava, mas que eu sabia que tinha sangue na guelra. Tornou-se cinzenta e previsível.
Pisam-me os calos? Está bem. Exigem o que não posso dar. Vou ver isso. São injustos. Eu espero que passe. Blá. Blá. Blá. Sem sangue, nem arrepios. Sem paixão, nem conquistas. Cinzento. Tudo.
E eu odeio quem me deixa viver assim. Odeio os meus amigos. Todos. Que me deixam aqui. Todos! Menos aqueles que, pelas circunstâncias, não me chegaram a conhecer os pensamentos na totalidade. Os novos. E os velhos que estão distantes. Perdoo esses. Os outros não. Os outros abandonaram-me. Foram embora. Viraram as costas.
Sou agressiva, por isso ninguém fica para me aparar as lágrimas quando sofro, com medo de serem arranhados pelas minhas garras vis. E vivi com isso. Sou fechada, por isso ninguém consegue arrancar-me o que me vai na alma e muito menos adivinhá-lo. E eu perdoei isso. Dou e dou e dou e vazia de dar sem receber, imponho limites. E o pior acontece. Perco-os. A todos.
Good riddance.
Não os quero por perto. Nenhum. Chega de cobranças e acusações, chega de usos e abusos e de epítetos e títulos. Quero ser OUTRA pessoa e não me deixam. Quero ter outros adjectivos e não mos dão. Quero que me amem e me leiam e me cuidem e não o fazem. Quero-os, por isso, fora de mim de vez.
Mas, sem forças para grandes paixões, desabituada de as ter, ou, se calhar, consciente de que tanto faz, continuo a ser a amiga de circunstância. A que responde às dúvidas e às questões sobre como se faz isto e aquilo. A que vai ao concerto ao Domingo á noite e que aceita as conversas de café. A que resume em duas frases o carrossel da vida quando alguém o pede. E eles gostam disso. Isso basta-lhes. E odeio-os por isso também.
Com as existências finalmente formatadas em casais mais ou menos convencionais, ter Amigos (com A grande) dá, suponho, demasiado trabalho. Não a mim. Que roubei horas da minha relação para pegar em mãos alheias. Mas a todos os outros custa, parece-me, fazer o mesmo. E então sou aquela a quem ninguém pergunta “Como estás?”. Aquela a quem as ausências não são questionadas com o “Porquê?” a que todos têm direito. Aquela por quem nunca ninguém saiu nem vai sair do seu rumo. Aquela que sempre esteve lá, mas já não está de tão vazia. E isso é imperdoável!
Desconhecida. Até de mim própria. Não sei quem é este ser de sangue frio que me habita. Que não vira a mesa. Já não sei encontrar saídas e soluções. Perdi-me algures. Choro. Seco as lágrimas. E durmo uma noite à espera que passe. Não passa. Estou sozinha. Sempre sozinha. Agora, assumidamente sozinha. E altiva nisso. Afinal foi assim que sempre estive. Apenas não o sabia.

quinta-feira, julho 02, 2009

Poema do Homem Só

Sós,
irremediavelmente sós,
como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.

Os que passam e os que ficam.
Todos se desconhecem.
Os astros nada explicam:
Arrefecem

Nesta envolvente solidão compacta,
quer se grite ou não se grite,
nenhum dar-se de outro se refracta,
nehum ser nós se transmite.

Quem sente o meu sentimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
sou eu só, e mais ninguém.

Dão-se os lábios, dão-se os braços
dão-se os olhos, dão-se os dedos,
bocetas de mil segredos
dão-se em pasmados compassos;
dão-se as noites, e dão-se os dias,
dão-se aflitivas esmolas,
abrem-se e dão-se as corolas
breves das carnes macias;
dão-se os nervos, dá-se a vida,
dá-se o sangue gota a gota,
como uma braçada rota
dá-se tudo e nada fica.

Mas este íntimo secreto
que no silêncio concreto,
este oferecer-se de dentro
num esgotamento completo,
este ser-se sem disfarçe,
virgem de mal e de bem,
este dar-se, este entregar-se,
descobrir-se, e desflorar-se,
é nosso de mais ninguém.

António Gedeão

sexta-feira, junho 05, 2009

CSI Las Vegas? Não! PSP Coimbra!!!

Tarde luminosa de Quarta-feira. Encerrado o computador e fechada a porta do escritório, fugi para os braços do meu gajo.
_E se fossemos dar um voltita ao estádio. Sá para espairecer? – Pergunta ele.
Fazemos isso algumas vezes, eu e o meu gajo. Ele acha que é exercício. E eu aproveito para “fazer a fotossíntese” (para quem não me conhece, aqui fica a explicação: quando não apanho sol/luz directa durante algum tempo começo a ficar de mau humor…). Fomos.
Seguíamos de mãos dadas, a falar das trivialidades do dia quando se ouve um estrondo de vidros a partir. Do outro lado da rua, um tipo espatifa a janela traseira do carro e enfia o torso dentro do veículo.
_Não olhes! Vou ligar à polícia! – Adverti o meu gajo que ficou especado a olhar para a cena. Incrédulo.
Enquanto eu ligo para o 118 (Estúpida!!! Devia ser o 112! Enfim…) e pedia o número da PSP, o tipo puxa uma bolsa de computador da mala aberta do carro e foge a sete pés de costas para nós.
Enquanto eu ligo à polícia, o meu gajo grita “LADRÃO” a plenos pulmões e corre atrás dele! E eu corro atrás dos dois!
Obviamente o homem desapareceu pelas ruas da cidade antes de o conseguirmos alcançar. E obviamente a polícia demorou QUARENTA minutos a chegar. Foi preciso mais um telefonema a espumar, a perguntar se podia ir à minha vida já que eles não nos deram atenção, para finalmente mandarem um carro de patrulha. O proprietário chegou ao mesmo tempo que eles.
O desgraçado tinha a vida TODA no computador. É um professor que não faz cópias de segurança e que estava a trabalhar há seis meses num projecto de investigação. Ficou de todas as cores e com a boca aberta a olhar para nós sem conseguir reagir durante largos minutos…
A polícia - solícita, vá lá… - explicou-nos como era difícil, hoje em dia, conseguirem reaver um computador.
_Dantes, quando havia uma ocorrência destas, dávamos uma volta aí pelos armazéns que nós sabemos que podem receptar estas coisas e havia hipóteses… Agora a lei mudou e, para entrarmos nalgum lado, temos de ter um mandato. Ora, como é que se arranja um mandato em tempo útil num caso destes…? – Perguntavam genuinamente desolados – A esta hora o tipo já o passou, já comprou droga e já está do outro lado da cidade descansadinho.
O dono do laptop torcia-se e pedia apenas “que me arranjem forma de reaver o computador! Nem que eu tenha de pagar por ele”, enquanto os polícias davam uma aula didáctica sobre como NUNCA se deve deixar objectos à vista dentro de um carro! Verdadeiramente preocupados (nunca tinha visto nenhum polícia assim… a trabalhar mesmo…), ligaram á esquadra a perguntar porque é que tinham recebido a participação com tanto atraso e ainda nos convidaram, a mim e ao meu gajo, a dar uma voltinha no carro da polícia na tentativa de “identificar o suspeito”. A possibilidade favorita da polícia não era o “nosso” suspeito, mas a verdade é que “um homem alto e magro, de cabelo cortado à máquina bem curtinho e de calça de ganga e t-shirt azul acinzentada” pode ser qualquer um.
O episódio não ficaria por aqui. O tal professor estava tão desesperado que, mesmo depois de eu lhe dizer por telefone que não seria capaz de identificar suspeitos por fotografia porque só tinha visto o homem de costas, mandou dois investigadores (da PSP, não do CSI!) ao meu trabalho com um dossier de fotografias. Nem eu nem o meu gajo conseguimos identificar ninguém, mas ficámos a saber que artistas como aquele há ás dezenas em Coimbra…

sexta-feira, maio 22, 2009

Uma noite no cinema

INT. - Cinemas Dolce Vita Coimbra - NOITE

A plateia assiste, concentrada, ao tenso filme “Sinais do Futuro”. Os espectadores estão fechados dentro da sala escura há cerca de 30 minutos. Na tela, a personagem de Nicholas Cage, o protagonista, vive o Plot Point 1 (momento chave do filme em que a história está finalmente esplanada e algo acontece para fazer a personagem começar a agir). Nick, no ecrã, enfrenta uma tempestade no meio de uma auto-estrada. Parado no asfalto, descobre que a estrada está cortada pela polícia e saí do seu enorme jeep para ver o que se passa, sempre debaixo de uma chuva intensa e dramática. À frente dos olhos surge-lhe um enorme acidente - um auto-tanque tombado na auto-estrada - enquanto um polícia mal humorado lhe ordena que regresse ao seu carro. A banda sonora sugere o perigo em que a personagem se encontra. Atrás de Nick a ameaça surge inesperada. Um boing desce dos céus, descontrolado, a uma velocidade estonteante. Inclinado, a cair irremediavelmente, deixa que, com aparato, uma das asas abalroe as linhas de alta tensão que atravessam a via e vários carros parados na auto-estrada, que se incendeiam entre os gritos de quem sobrevive. No segundo seguinte, despenha-se numa bola de fogo. Neste exacto momento, a sala de cinema fica às escuras. As luzes de presença acendem-se timidamente. A plateia entreolha-se com surpresa. O silêncio, de início, é absoluto. Depois ouvem-se risadas nervosas. Por fim, alguém decide levantar-se para ir descobrir o que se passa. Antes do espectador fazer todo o caminho até ao fundo da sala, surge uma funcionária do cinema. O espectador fica a meio da escadaria, em suspenso.

FUNCIONÁRIA (Muito nervosa): Pedimos desculpa por este incidente. Houve um corte geral de electricidade na cidade de Coimbra. …Mas nós já estamos a tratar de normalizar a situação!

Silêncio de novo. Depois a plateia larga uma gargalhada em uníssono. A funcionária percebe “o erro” e retira-se…

FUNCIONÁRIA (Timidamente): …Com licença…

A jovem sai da sala apressada e os espectadores trocam piadas acerca das capacidades dos funcionários do cinema.

ESPECTADOR 1: Devem achar que são o James Bond… Vão resolver o blackout.

ESPECTADOR 2: O MacGyver! Pensam é que são o MacGyver…

E a plateia volta a rir. Mas há um nervosismo a pairar na sala.

ESPECTADOR 3 (Baixinho): Olha que o momento em que o blackout aconteceu foi bem bizarro… Fogo…

Momentos depois, a tela volta a iluminar-se para deixar ver o Nicholas Cage a correr para salvar os acidentados e as luzes de presença apagam-se. A normalidade é restaurada. Só no final do filme se voltam a ouvir comentários jocosos…

ESPECTADOR 4: Espero que da próxima vez o avião não corte as linhas de alta tensão. O pessoal que estava a ver os “Anjos & Demónios” nem deve ter percebido a causa do blackout!

Mais uma gargalhada geral e a plateia sai do cinema com um sorriso nos lábios e uma história inocente para contar aos amigos.

quarta-feira, maio 13, 2009

Preciso de FÉRIAS!!!

A dormir ou acordada, o meu cérebro anda a pregar-me partidas. Deitada na minha cama, ao acordar, ainda com a cabeça na minha doce almofada de penas, dou por mim nas Ramblas, em plena noite agitada, com ofertas de bebidas enlatas em saldos e travestis em festa. Ao acordar, os meus olhos vislumbram no tecto o Thames e a Tower Bridge. E continua. Lavo os dentes e, da noite para o dia, surge-me o odor primaveril das flores expostas debaixo do sol nas inúmeras bancas da icónica calle de Barcelona. E a sair de casa, a caminho do carro, de chave na mão, ouço o metro mais antigo do mundo e sinto o seu inconfundível tremor enquanto, na linha azul, ele pára em Piccadilly Circus. Sentada no quente dos estofos, com os sons da rua abafados, chamam-me a atenção as inúmeras vozes do Barri Gótic, dos comerciante que chamam clientes ingénuos com o engodo do desconto à Torre de Babel que são as línguas dos inúmeros turistas que por lá se passeiam à hora que devia ser da siesta. Se desvio o olhar para o céu azul, surge-me na mente a praia quase privada de Santa Cruz, na Corunha, ou a areia branca de Benidorm. Chego a sentir o calor do Mar Mediterrâneo nos pés e penso fugir da medusas. Demoro muito tempo a livrar-me destas lembranças enquanto faço o duro caminho para o escritório…
Em suma: preciso de férias!!!

quinta-feira, maio 07, 2009

Homenagem a Maria Gracinda Pechincha (Versão Editada)

Cara Prof. Maria Gracinda Pechincha,

Eu sou uma das MUITAS alunas que frequentaram as aulas de Português da Prof.. Chamo-me GK, era uma aluna pouco interessante (penso que nunca cheguei a ter mais de 13) e, olhando para trás, assumo que era também pouco ambiciosa.

Na minha turma – uma turminha “decente”, que ainda hoje deixa saudades – eu era, talvez, a menos auspiciosa no que diz respeito ao bom uso da Língua de Camões… Lembro-me até de ter tido um “Mau” num mini TPC. Recordo-me muito bem de chorar na casa de banho cheia de vergonha, mais pela mácula no meu CV sem história (boa ou má) do que por achar que isso teria alguma repercussão no meu futuro.

Mas esse tal futuro é, sem dúvida, um diabrete e quis o destino (ou a minha indecisão) que eu me tornasse numa das muitas jornalistas miseráveis desta cidade, sendo a minha ocupação diária… escrever.

No curso de Comunicação Social, professores e colegas eram unânimes ao afirmar que eu “escrevia bem”. Não era um grande elogio. Eu não “escrevia bem” como a Isabel Allende ou o Eça. Eu escrevia bem porque não punha vírgulas entre o sujeito e o predicado e não trocava as concordâncias... Era clean e eficaz. Escrevia qualquer coisinha sem hesitar. …Foi a primeira vez que percebi que os textinhos de 8 linhas que a Prof. nos obrigou a escrever todos os dias durante 3 anos serviam para mais do que desabafar sentimentos no papel (função já de si muito útil para uma adolescente)…

Fui jornalista. Pelo meio terminei o curso de Comunicação Organizacional. Entre o jornalismo e as Relações Públicas, consegui estar, ao todo, dois anos desempregada (em períodos distintos). Não parei. Escrevi um filme, alinhavei uma peça de teatro e, além dos cinco blogs de que sou autora, estou actualmente a terminar um livro. Nada disto são grandes obras. São antes brincadeirinhas de quem não consegue… não escrever! PRAGA pela qual responsabilizo a Prof..

Sou o que se pode chamar de uma pessoa sem qualquer tipo de talento, mas com uma enorme capacidade de trabalho. Não desperdiço NADA do que a vida me ensina e, talvez por isso, sou aquela que, volvidos 13 nos anos desde que nos despedimos, continua a achar que a Prof. Gracinda Pechincha foi das melhores coisas que nos aconteceu na vida. …E está na altura de o agradecer.

A “Stôra” Pechincha tentou ensinar-nos cultura geral numa altura em que já não se trabalhava para saber, mas para passar em exames. OBRIGADA. A “Stôra” Pechincha ensinou-nos a ler em vez de passar os olhos pelas histórias sem querer medir o peso das palavras. OBRIGADA. A “Stôra” Pechincha ensinou-nos a tirar o significado das palavras que são ditas e das que não são ditas num texto ou num discurso ou numa conversa. OBRIGADA. A “Stôra” Pechincha ensinou-nos a escrever com o seu TPC fetiche (textos diários de 8 linhas). OBRIGADA! A “Stôra” Pechincha ensinou-nos a PENSAR sem medo e sem censura! MUITO, MUITO, MUITO OBRIGADA!

Acredito que aprendi muito, muito, muito do que me tentou ensinar e que a minha vida foi TOTALMENTE alterada por isso. Não tenho dúvidas de que ainda hoje continuo a aprender com as lições que me deixou entranhadas na pele. E por isso agradeço e agradecerei SEMPRE.

Despeço-me, prometendo que se algum dia alguma coisa minha for publicada farei questão de a dedicar “À minha extraordinária professora de Português, Maria Gracinda Pechincha, que me ensinou a escrever e, principalmente, a pensar”.

Um beijinho MUITO, MUITO, MUITO grande,

GK

quinta-feira, abril 30, 2009

Salvation

Todos procuramos uma salvação. Aquele caminho dourado e maravilhoso que nos leva à felicidade. Todos achamos que há algo mais do que “isto”. Nascemos para ser especiais. Apenas ainda não encontrámos a resposta, a razão para termos sido colocados neste planeta. Todos procuramos a nossa missão.
O emprego das 9h às 5h não chega para nos dar um motivo para viver, por isso, desdobramo-nos em formações e seminários, em filmes e concertos, em viagens e campanhas, voluntariados e caridades. À procura.
As artes servem-nos de escape. Desenvolvemos opiniões críticas sobre quadros, canções e filmes. Enchemos a casa de livros e documentários sobre as nossas áreas particulares de interesse. E arranjamos “projectos”.
Todos temos “um projecto” que nos vai salvar. Todos temos algo que vai deslumbrar o mundo um dia. Algo que, invariavelmente, não chega à luz do dia devido a uma secessão de desculpas mais fáceis de inventar do que admitir a verdade: a falta de talento.
Todos acreditamos que a nossa “oportunidade” está ao virar da esquina. Todos temos a certeza de que somos a próxima grande estrela planetária que vai inspirar as pessoas e quem não percebe isso é porque não nos percebe de todo.
Depois há aqueles dias em que alguém viu “o projecto” e não se deslumbrou. Ou em que a nossa opinião crítica foi ridicularizada. Ou em que alguém concretizou algo que nós continuamos a tentar concretizar. Aqueles dias em que palavras sábias ecoam no nosso espírito com conotações cruéis. Aquele dia em que alguém nos dá a “palmadinha nas costas” para não nos mandar passear e em que a palmadinha adquire o peso de toneladas e estilhaça o nosso espírito para sempre.
Nesse dia olhamos para o emprego das 9h às 5h à procura da salvação, de algo que não tenhamos visto antes, algo que sirva para nos colar os pedaços dispersos da alma. Procuramos a maturidade, a satisfação com a sorte que temos. E não achamos nada. Voltamos a olhar para “os projectos” na esperança de que adquiram novo encanto, que nos façam esquecer o golpe. E nada acontece.
A partir desse dia vagueamos pelas ruas com o absoluto sentido do ridículo, do nada em que vivemos.
É a isso, talvez, a que chamam idade adulta…

sexta-feira, abril 24, 2009

Este fim-de-semana...

Workshop "Argumento"

Descrição:
Como se escreve um guião? Como se conta uma história em Televisão e Cinema?

Conteúdos Programáticos:
O cinema e a televisão são formas de comunicação contemporâneas, que no nosso século tiveram de inventar a sua linguagem. Neste curso estuda-se como se tem definido e transformado a escrita própria de textos destinados a serem filmados. Trata-se de um género que só pode ser compreendido por relação com a narração e o drama. Para compreender a «narração dramática» dos guiões, trabalham-se as teorias clássicas da narração, as estratégias narrativas de vários tipos de filmes, as personagens, as cenas, os diálogos e técnicas específicas de manipulação do espaço e do tempo. Tudo isto será desenvolvido a partir das sinopses previamente enviadas pelos participantes.

Pré-Requisitos:
Os participantes deste workshop devem enviar com antecedência uma sinopse, de modo a tornar o workshop o mais interactivo possível. A sinopse deve ser uma página, com sinopse original de um filme de ficção, atenção que não é de um filme já feito, mas sim um filme que imaginaram, com princípio, meio e fim. A organização fornecerá a morada de correio electrónico para este envio.


Outras Informações:
Datas - Sábado 25 e Domingo de 26 de Abril 2009
Horário - 9h às 13h e das 14h às 20h
Lugar - Edifício AAC
Limite de Participantes - 20
Horas de Formação - 20
Frequência Mínima - 70%
Preço Workshop - Sócios CEC/AAC 40€ Público em Geral 50€

quinta-feira, abril 16, 2009

Condutora de fim-de-semana?

Situação 1:
Numa noite chuvosa, conduzi alegremente o meu gajo e uma amiga até um retail park nos arredores da cidade. Fiz o caminho e estacionei sem qualquer hesitação. Saímos todos do carro em amena cavaqueira e, quando se fecha a última porta, o carro começa a deslizar para a frente... Pergunta do gajo, quando eu já me estava a enfiar dentro do carro e a puxar o travão de mão:
_Então, não travas o carro?!
Sim, normalmente…
…Dah!!!

Situação 2:
Ao fim de dois meses a estacionar numa estrada a subir perto do ginásio, eu faço o difícil exercício de fazer uma inversão de marcha difícil no meio dessa estrada inclinada para estacionar num lugar vago logo ao início da rua. No passeio, à minha espera, está uma colega da aula de Corpo & Mente. Eu alinho o carro com o da frente e começo a manobra. Os lugares costumam ser grandes e, apesar do declive, costuma ser facílimo estacionar ali. O que eu não contei foi com a p*** da árvore que estava no canteirinho atrás do carro da frente. Escusado será dizer que teria estacionado à primeira, se a roda da frente não esbarrasse no canteiro. Ora, nas tentativas de pôr o carro direitinho e super confiante da grandeza do lugares, bato no carro de trás com um barulho condizente com a trombada...
Saí do carro para verificar os estragos, mas nenhum dos dois tinha qualquer arranhão.
Tirei o carro daquele lugar e tentei fazer uma manobra semelhante mais à frente, já sem canteiro. Mas, toda a tremer e com lágrimas nos olhos, é difícil ter atenção às referências. Não consegui…
Durante este tempo todo, a minha colega olhava para mim do passeio. Disse-lhe adeus e desisti.

Situação 3:
Chuvia a cântaros. Na tentativa de me molhar um pouco menos, à hora de almoço, decidi estacionar bem à frente da minha porta em vez de deixar o carro nuns lugares ao cimo da rua. Por isso, pela terceira vez na vida, fui fazer a inversão de marcha num larguito logo a seguir à minha casa. A rua, à entrada do largo, é estreita, em curva e tem uma inclinação de uns 35 graus (estou a exagerar, mas é bem inclinada…). Além disso, o facto de o largo ser minúsculo, ter sempre carros estacionados e não ser alcatroado (ou seja, o carro “mergulha” no largo empedrado e, para fazer a marcha atrás, sobe uma “parede” inclinada e em curva) acrescenta alguma dificuldade à manobra.
Entrei no largo, fiz a marcha atrás de volta à estrada inclinada, acertando direitinha na rua estreita e, para arrancar a subir, puxei o travão de mão, não fosse o carro bater num muro que ladeia a estrada em frente ao largo, ou pior, cair na ribanceira que existe ao lado do muro, mais abaixo. Ora, eu raramente puxo o travão de mão e enerva-me não fazer o ponto directo. Suponho que é uma questão de hábito. Mas ali, era uma questão de segurança...
Tento arrancar uma vez e o carro vai abaixo. Entretanto, um vizinho meu que vive numa das casas que dão para o largo, sai de casa e dirige-se ao carro dele (estacionado… no largo). Tento arrancar segunda vez e o carro vai abaixo. O meu vizinho entra no carro dele. Tento arrancar terceira vez e o carro… vai abaixo. O meu vizinho sai do carro dele e, junto ao meu carro, pergunta se “precisa de ajuda”… Furiosa, digo-lhe:
_Não me leve a mal, mas não, obrigada. - Na minha cabeça passam vários insultos ao macho que acha que vai salvar a dama em apuros.
Tento arrancar a quarta vez enquanto ele, lá de fora, à chuva, me diz para “virar para a esquerda”! O carro vai abaixo. Outra vez.
“Ó meu filho da puta!, obviamente que eu tenho de virar para a esquerda! Senão dou com os cornos num muro. Não te parece claro que a minha dificuldade não é virar?! F***-**! Daqui a pouco pede-me uma moedinha!” Isto passou-me pela cabeça, enquanto delicadamente lhe grito pelo vidro:
_Muito obrigada, mas eu disse-lhe que não preciso de ajuda.
“Eu sei como se faz, ó idiota! Só preciso que me deixes em Paz para o poder fazer SOZINHA!”
À QUINTA vez, arranco a grande velocidade pela rua acima, enquanto aceno um obrigado ao cromo do cavalheiro... Apenas para parar 10 metros à frente, à minha porta.
A chorar, vejo-o passar de carro por mim, estrada acima.

Não percebo qual é a mensagem do Universo. A sério que não. Estava a começar a ficar mais confiante na minha condução. É suposto eu voltar a “anhar”? Vejo idiotas na estrada todos os dias e SEI que não sou um deles. Quando estou sozinha não me acontece NADA de NADA! Mas, quando tenho testemunhas, pareço uma idiota. Se não fosse pela questão da independência, estacionava o Vermelhinho e não lhe voltava a pegar. F***-**!!! P*** que pariu esta m****!

quinta-feira, abril 09, 2009

A Crise


Numa obra pública enorme, onde têm havido diferendos quantos aos juros dos pagamentos:
Dono da obra:
Parem lá com essas confusões e ninharias. Quem vos dera que toda a gente vos pagasse a tempo como nós!
Empreiteiro: Quem nos dera que toda a gente NOS PAGASSE, PONTO!

No centro de estética depois DA PRIMEIRA SESSÃO (de muitas que se seguirão) de fotodepilação:
Cliente:
Hum… Vou pagar com um cheque pré-datado… É que este mês tive uns problemitas inesperados com o carro… Agradecia que não depositassem este cheque antes de dia X…

No autocarro, ao telefone:
Passageira:
Então não vai porquê? …Pois… Então, mas eu também não tenho dinheiro… Não, não tenho. Vou pagar com o cartão de crédito e depois paga para o mês que vem ao banco… Pois… Anda lá! É só UM JANTAR!...

MEDO!

quinta-feira, março 26, 2009

Defeito de fabrico

Tenho um defeito de fabrico. Sem dúvida. Ou me adoro e me tenho em demasiada boa conta ou, de facto, o mundo é cão e sarnento.
Sou a gaja mais social que conheço. Estou bem em grupo. As pessoas já esperam que seja eu a organizar as saídas e os aniversários. Não sei como fiquei com estas tarefas, mas o que acontece quando eu não dou notícias é receber o “nunca mais disseste nada” ofendido, como se a responsabilidade da falta do contacto não fosse sempre mútua. Por outro lado, sou a pessoa com mais dificuldade em fazer amigos que conheço. Não me dou “assim”. Não estou disponível para me partilhar às primeiras. Se não fizerem por isso, daqui não levam “nada”.
Mas quando digo “nada”, refiro-me a levarem o meu coração, a minha confiança. Não me refiro a levarem o meu carinho, o meu apoio ou as minhas palavras de incentivo. Não, essas, distribuo-as generosamente, por amigos, conhecidos e até desconhecidos. Acho que há pouca gente no mundo a fazer isso e, por isso, assumo-o como a minha missão: ser “supportive”. A claque. A que diz que “sim, é possível”sempre.
E os estanhos não me desiludem muito. Se me mostro generosa, recebo, no mínimo, um sorriso. (Há excepções, claro!, mas em geral, a simpatia humana é bem recebida…) São os amigos que me fazem vacilar, que me obrigam continuamente a ajustar as regras…
Sou a primeira do grupo a “pegar na mão”, a “dar colo”. Mesmo que pressinta muito trabalho pela frente. Por esta altura, e ao fim de uns 10 anos no mesmo grupo de amigos, já sei de cor as respostas de quase toda a gente em quase todas as situações. E, por isso, também sei o potencial de estragos que cada situação tem em cada pessoa. E por isso, em geral, dou o “colo” antes de mo pedirem.
Mas tenho limites. Cada vez mais. Não suporto re-runs. Não aceito ser mãe de ninguém por muito tempo. E parece que não perdoo que não me devolvam na mesma moeda. E, portanto, a pouco e pouco fui-me aproximando e afastando de quase todas as pessoas do grupo. Fui mãe, fui pai, fui tia e depois fui madrasta. E este é o caminho invariável. Até desistir de ter retorno. Até ser uma frustrada. Até estar, mas não estar.
Por isso, chego à conclusão de que sou eu que tenho um defeito de fabrico. Sou eu que não me adapto e que peço demais às pessoas e, ao sentir-me defraudada, ergo uma barreira emocional consciente, que tento a todo o custo manter de pé e onde bato repetidamente com a cabeça. Sou eu que devo ter um ego enorme que precisa de muito mimo, embora o sinta espezinhado quase todos os dias… Porque é a mim que me falta colo. E eu não acho justo ter de o pedir. Não acho justo que me magoem com fanfarronices, lições e desatenções. Não acho justo passar à reserva quando o umbigo fala mais alto. Não permito que me usem, abusem e depois me ignorem, tão inconscientemente como consciente foi o pedido de carinho. Não estou disponível para isso.
Ou então o meu “defeito” é mais grave ainda… Sou eu que não sei pedir / aceitar que cuidem de mim como cuido dos outros. Sou eu que bloqueio quando falo de mim, que desvalorizo os meus problemas, que sinto que os imponho quando falo deles. Sou eu que me retraio. E depois acuso quem não percebe que tenho algo para dizer… Será?
Admiram-me por ser frontal. Condenam-me por ser agressiva. E, sou, assumo. Sou agressiva. Não guardo “desaforos”, nem rancores. Sai-me tudo pela boca. Não fico a remoer muito tempo e, se fico, na tentativa de “poupar” alguém, acabo por ser ainda mais agressiva. Não gosto de paninhos quentes entre amigos, muito menos mentiras e falsidades. E, por isso, comigo, levam sempre com a minha verdade, quer gostem dela, quer não. E preparo-me para o mesmo. Mas raramente o obtenho... Parece que as pessoas não estão para se interessar o suficiente para ponderarem, avaliarem e dizerem exactamente o que pensam, doa a quem doer. Isso dá demasiado trabalho e tem demasiadas consequências. Já não há tempo para isso. Nem entre amigos…
Contas feitas, não sobra ninguém. Ninguém que partilhe da minha alma. Ninguém que a queira partilhar. Ninguém que eu permita que me descortine por muito tempo. Aos que pensam que querem fazê-lo, parece faltar-lhes sempre disponibilidade, oportunidade, paciência… ou sabedoria. Não há ninguém a quem eu, de momento, queira/consiga estender a mão no caso de estar debruçada sobre um precipício, porque não reconheço em ninguém a certeza de que não me vai largar. Acredito que o mais certo seria distraírem-se com alguma caravana que passa e esquecerem-se de mim…
E, por isso, demito-me! “A Agressiva” demite-se do cargo falso e cansado de amiga, de organizadora de jantares, de aniversários e de saídas de fins-de-semana. Demito-me de fazer mais do que os restantes. Demito-me de me envolver. De querer o grupo junto. De planear coisas a contar com as pessoas. Demito-me. Porque falhei. Falho sempre. Por isso, alguém que assuma o meu lugar.
Mas, se bem conheço os meus amigos, ninguém o fará. Porque só para mim este é o grupo A. Para os outros será o B ou C ou D… Se bem conheço os meus amigos, ninguém vai perceber que me demiti, nem querer saber porquê, nem perguntar o que estou a fazer numa tarde triste de Domingo. Não enquanto houver distracções e planos novos e namorados para jantar. Não enquanto não houver um sentimento claro de solidão ou tristeza ou uma necessidade clara de colo, de partilha. Aí, sim, alguém se vai lembrar de que eu estou sempre disponível…
Mas que digo eu? Estou a ser injusta! O defeito é meu. Estas acusações devem seguramente servir para mim também! E, por isso, sou eu quem tem de decidir se isto chega ou não chega para mim. Sou eu que tenho de assumir a minha desilusão e a minha solidão. Sou eu que tenho de saber se me vou desrespeitar novamente ao ponto de deixar que o tempo encontre uma solução qualquer, intermédia entre a partilha da alma e esta espécie de amizade… Sou eu que tenho de mudar. De partir. De viver.

quinta-feira, março 19, 2009

Carta de motivação

Ex.mos(as) senhores(as),

Escrevo esta carta, não porque ma tenham pedido, não em resposta a qualquer anúncio, nem sequer por sugestão de qualquer amigo poderoso (até porque não os tenho). Escrevo-a porque sim. Porque me parece que já nada tenho a perder.

O meu nome é GK, sou de Coimbra e tenho dois cursos superiores. Foram dois porque o primeiro não me satisfez e o segundo continua por me satisfazer. Talvez não seja a formação académica que importa, mas habituei-me a referi-la ou não tenha eu crescido na “Cidade dos Doutores”… Digo que a formação não importa porque me parece que a maior parte das empresas escolhe os funcionários atirando ao ar todos os CVs recebidos e vendo qual deles cai no caixote do lixo. Não digo isto para ofender quem quer seja, é mais porque, na minha (já interessante) vida profissional, me deparei com mais incompetência do que com gente capaz. E quanto mais importante é o cargo mais incompetência encontro… Em geral, quero dizer… Claro que há excepções. Não as há sempre?

Mas minto. Também encontrei gente capaz e dedicada... Normalmente isso passa-lhes num instante: ou desistem de remar contra a maré e passam a fazer apenas o que é estritamente necessário por não encontrarem retorno no seu investimento e empenho... ou são cilindrados e tão vergados pela falta de atenção e de incentivo que acabam por deixar de ter capacidade para se auto-motivarem e começam a acreditar que são uma corja igual aos que os avaliam.

Mas não é disso que vos queria falar. Queria falar-vos de mim. Queria dizer-vos como sou boa profissional, que enfrento desafios de cabeça erguida, que sou sociável e falo bem em público e todas essas tretas que colocamos no CV e que não significam nada se estivermos na semana do SPM. Ah! Que pecado!!!!

Perdoem-me. Não devia referir o SPM... Aliás, não devia sequer referir que sou mulher. Devia dissimula-lo, escondê-lo o mais possível com frases competitivas e tiradas jocosas, talvez a atirar para o brejeiro, em suma, devia fingir que apesar de ter mamas, também tenho tomates, como qualquer membro do Conselho de Administração da V. prestigiada empresa. Bom, assim será daqui para a frente. Perdoem-me este pequeno deslize… Tomates terei. Sempre. Embora desconfie que não chegam para esconder as mamas... Bom...

Procuro, então, o emprego dos meus sonhos. Para dizer a verdade, esta é a décima nona carta de motivação que escrevo hoje. Mas vamos lá ver se ainda consigo encontrar palavras bonitas para vos convencer de que sempre quis trabalhar na V. empresa.

...Faz mesmo o quê, a V. empresa? Ah! Desculpem… Já são muitos googlanços hoje… Já estou a confundir tudo…

Ah! Sim. Já sei o que fazem. Mas, esperem lá… Porque é que eu estou a enviar o CV para uma empresa que produz palitos em Vila Nova da Barquinha?

Ah! Já sei… Já tentei tudo o resto. Pois… Bom… O que posso dizer…? Hum… Querem mais motivação para trabalhar na V. empresa do que a conta bancária a zero? Do que sentir-me inútil e desesperada à espera de alguém que me dê uma oportunidade? Do que ter o pai e mãe a perguntarem-me todos os santos dias porque é que eu continuo de roupão sentada ao computador em vez de andar de blazer a entregar CVs de porta a porta (não entendem que os tempo mudaram…). Aliás, querem maior motivação para trabalhar seja para quem for que me dê um salário decente do que ter 30 anos e ainda viver em casa dos pais enquanto se acaba de pagar o primeiro carro em segunda mão, à custa de um mini-subsídio de desemprego arrancado a ferros no fim de seis meses de miséria num barracão qualquer registado como empresa, depois de cinco ou seis anos de vida profissional a recibos verdes???

Por isso, envio o CV em anexo. É Modelo Europeu. Lindíssimo. Cuidado. Elogioso. Eu diria que é perfeito. Só espero que ele tenha também o mérito de cair dentro do V. caixote do lixo na V. próxima consulta aos arquivos com o intuito de preencher uma vaga.

Com os melhores cumprimentos,

GK