Pensei ignorar a data. Esquecê-la… Mas quem é que consegue fazer isso neste mundo?
Não dá para ignorar. Por isso, assumo-a.
Hoje é dia 11 de Stembro! “O dia em que o mundo mudou”.
E onde estava eu a 11 de Setembro de 2001?
Sentada, em casa, a almoçar.
O noticiário do Canal 1 interrompe o alinhamento para incluir imagens de um “acidente” nos Estados Unidos… Há falta de informação. Suspeita-se que um avião chocou contra a Torre Norte do World Trade Center. Na imagem, a torre arde.
Não percebi na altura a gravidade da situação. Pensei que, lá, era cedo demais para os escritórios estarem cheios… Mas, à medida que ouvia a jornalista, percebi que estava enganada… Já os olhos não me saíam do ecrã…
Vemos, todos, um outro avião a aproximar-se. CNN e Canal 1 dizem que é da polícia… Mas é grande demais para ser da polícia… Não é da polícia!
O avião chocou contra a Torre Sul! Assim, em directo! Para o mundo ver...
O almoço já não me caiu bem.
Eu tinha de ir trabalhar, mas não conseguia tomar a decisão de deixar de ver aquilo…
Subi a rua, atrasada.
Na paragem questionava-me se aquelas pessoas de rosto fechado sabiam o que se estava a passar…
Quando saí de casa, já era claro que era um atentado terrorista. O Pentágono tinha sido atacado.
Guerra. Pensei. Estamos TODOS em guerra. Não há mínima hipótese de isto não ter resposta. E depois… respostAS…
Guerra. É a Terceira Guerra Mundial que começa aqui.
O meu cérebro congeminava vagos cenários de racionamentos e balbúrdia. Mesmo aqui, neste cantinho do mundo, as consequências seriam sentidas… Não tinha a mínima dúvida…
Lembro-me de mandar uma mensagem a uma amiga a referir isso mesmo: “Pediste-me para te avisar se a Terceira Guerra Mundial começasse porque não vês nem ouves notícias… Pois bem, sugiro que procures um rádio e o ouças… Acho que começou…”
Ela ligou-me a seguir, desconcertada. Tinha conseguido um rádio... Disse-me da torre que desmoronara…
Eu estava aturdida, dormente.
Cheguei à redacção. Todos olhavam para o ecrã, também aturdidos e dormentes.
Assim foi durante várias horas mais. Todo o dia, na verdade. Para toda a gente.
O meu chefe de redacção, que devia fazer os noticiários daquela tarde, pediu-me para o substituir e saiu. Não me lembro porquê. Mas fiquei com três noticiários, em directo, para fazer.
Fi-los. Com notícias que chegavam em catadupa. Número de vítimas. Autoria dos ataques. Discursos de responsáveis.
Lembro-me de dizer no ar que o grupo de Bin Laden recusou a autoria dos ataques… (Mas hoje ninguém se lembra disso… Estarei enganada?)
Também entrevistei o Prof. Boaventura Sousa Santos, sociólogo, que dava aulas em Nova Iorque… Estava aturdido. Ainda hoje recordo o tom baixo das nossas vozes, como lágrimas contidas... Não havia análise possível ainda… “Espero que a comunidade Nova Iorquina supere este trauma. Acho que vai superar… Mas o mundo inteiro vai sentir as repercussões…” Não era preciso um especialista para imaginar este cenário, mas este especialista era, hoje, um homem com o coração pequenino… como eu.
Chorei sozinha no estúdio mais do que uma vez. Não queria acreditar no que tinha sido cada noticiário…
Ainda não acredito.
3000 pessoas.
Guardo ainda os jornais daqueles dias. As revistas. As notícias. Gravo, ainda hoje, TODOS os documentários. Vejo os filmes. Procuro um sentido… E não o acho…